O Segundo Filho Pródigo

“Disse o Pai: ‘Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu”Lucas 15:31

Dois jovens solitários seguiam por uma íngreme estrada. Caminhavam em sentido contrário. Um descia rápido e sorridente rumo à planície que se descortinava lá de cima. O outro, rosto grave e sofrido, subia lentamente a encosta em direção ao cume. Num determinado ponto do caminho eles se encontraram e logo se reconheceram.

– Você é o meu irmão mais novo, que nos deixou há muitos anos e não deu mais notícias. Nosso pai, angustiado, aguarda o seu retorno.

– É justamente o que estou fazendo, regressando à casa paterna. E você, por que desce a montanha?

– Mesmo com desaprovação do nosso pai, resolvi partir. Pedi-lhe a liberação de parte da herança que me é de direito. Cá estou em busca de minha independência. Quero eu mesmo cuidar de minha vida. De posse de meus bens vou viver na planície onde, por certo, não faltarão oportunidades de enriquecimento e momentos de prazer. E você, porque  deixou nossa casa ? 

– Parti em busca de experiências. E quando cheguei  na planície fiquei empolgado com tantas atrações. Com elas gastei todas as minhas posses. Acabei na mais atroz miséria. Tive que ganhar o pão com o suor do meu rosto. Trabalhei para vários senhores, num momento de grande crise que assolou aquela terra. Caí na mais profunda degradação quando, sem alimento, fui obrigado a comer os restos que eram dados aos porcos. Foi preciso conhecer o pior dos infernos para me lembrar da casa paterna, onde era tratado como príncipe. Decidi regressar. Vou implorar ao nosso pai que me aceite de volta, mesmo que na condição de humilde servo.

O irmão mais velho, impressionado com aquela narrativa, perguntou:  

– Mas, de nada lhe valeram todos aqueles anos de planície? Nenhum ganho? Nada compensou tanto sofrimento?

O outro respondeu com muita convicção:

– Adquiri extraordinárias experiências com aquelas duras lições. Cresci interiormente. Conquistei maturidade espiritual. Agora subo a montanha despojado de todas as posses e sinto a alma mais leve. Em busca de riquezas e prazeres perdi parte da minha juventude, mas ganhei a mim mesmo. Descobri a minha verdadeira identidade, quem EU SOU realmente. Desde a partida da casa de nosso pai todos os acontecimentos na planície até o meu regresso constituem uma simbologia. Uma metáfora sobre a existência. Talvez até um arquétipo.  Representam quão insignificante é a existência, que entretanto comporta uma verdade cósmica infinitamente maior.

– Francamente, meu irmão, não consigo entender nada do que está tentando me dizer, interrompeu o mais velho.

– Vou tentar ser mais claro,

– Na casa paterna tudo era perfeito. A vida era uma sinfonia de paz. Mas eu não estava satisfeito. Resolvi seguir meu próprio caminho e conhecer os segredos do mundo. Minha partida simboliza o abandono de uma Totalidade Original, de um estado de inocência paradisíaca. Eu a rompi pela necessidade de seguir um caminho de realização própria. Aceitei o risco de me perder e me identificar com tudo aquilo que não faz parte intrínseca de minha essência espiritual. Foi o que aconteceu. A planície simboliza um plano de limitações e dores. Foi a lição que aprendi. Volto agora à casa paterna com outro estado de consciência. Reconheço-me como um indivíduo separado, mas parte integrante, consciente e harmonizado com a Unidade Macrocósmica. Agora compreendo que “Eu e o Pai somos UM”.

– Continuo a não entender absolutamente nada.

– Não se preocupe com isso meu irmão. Tudo virá no tempo certo. Siga seu caminho. Uma jornada a longa jornada te espera. 

Por Gilberto Silos

Posts recentes

Categorias

Arquivos

Design por: Maurilio Souza | Programado por: Loooping

X