/ ARTE

A Prisão da Liberdade

Um Texto de MICHAEL ENDE que trata sobre o Amor e o Temor à Deus.
Escritor de Fantasia Alemão, lido por adultos e crianças. Seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas Alguns de seus trabalhos foram adaptados para o cinema, para peças de teatro, óperas e áudio-livros.

Um Texto de MICHAEL ENDE que trata sobre o Amor e o Temor à Deus.

O mendigo cego, que todos chamavam de lnsh’allah (cujo nome significa: O que Deus quiser), deu continuidade a seu relato, dirigindo-se ao califa (2): “Já ouviste, ó senhor, como caí sob o influxo daquele cachorro grego bêbado e consumidor de carne de porco que se fazia passar por filósofo e que com seu palavrório me fez duvidar da sabedoria e do poder de Alá – Louvado seja o Seu nome! – convencendo-me de que o homem tem livre arbítrio e é capaz de gerar o bem ou o mal segundo seu próprio juízo e sua própria força.

 Porém, tu, ó senhor Califa, sabes bem que o homem na presença do Eterno – Louvado seja! – não é mais que um grão de areia no deserto, e assim como este é arrastado pelo vento de um lugar a outro e não pode mover-se por si próprio, assim a Vontade de Alá nos move a esta ou aquela ação, já que por vontade própria não somos capazes de nada. Por isso escuta, senhor, como a bondade e o rigor do Todo-Poderoso agiram sobre mim para me conduzir à total submissão à Sua Santa Vontade, permitindo que Íblis (3), o mentiroso, me tentasse e cegasse durante algum tempo. Eu era então um jovem na flor da idade e cheio da vã presunção que o veneno do grego havia instilado em meu coração. Acreditava que minha felicidade e riquezas se deviam a meu talento e saber de comerciante. Perdia meus dias em discussões filosóficas com aquele suposto mestre e amigo, e minhas noites em intermináveis orgias. Pensei que já não tinha que obedecer à ordem revelada por Alá através de Seus profetas. 

Por fim, cheguei ao ponto de não cumprir o mês de jejum, e inclusive comi e bebi durante todo o dia 27 do Ramadan, no qual celebra-se o Lailat al Kadr (4). Meus criados, escandalizados com meu proceder e aterrorizados diante da desgraça que assim atraia sobre minha casa, fugiram. Eu ri deles, e prometi castigá-los publicamente. Naquela noite estava embriagado e sozinho, meio adormecido pelos meus excessos, de modo que não sei dizer de onde surgiu a bela dançarina que de repente vi no meu diwan (5). Não a havia chamado e não a conhecia. 

A moça trajava um vestido solto de véus negros, com fios de prata que deixavam transparecer o brilho ebúrneo de seus bem formados membros. Seu rosto era como a lua cheia, seus lábios competiam com as rosas de Samarcanda. O perfume que seu corpo exalava era tão embriagador que pensei ter diante de mim uma huri (6). Começou a girar em sua dança e a dobrar seu delicado corpo. Acompanhava-a uma música de tão arrebatadora paixão que não pude mais me conter.

-Quem és, ó jóia sublime do amor? – exclamei – Haverás de pertencer-me, ainda que isto custe todas as minhas riquezas. Dize-me o que desejas. 

Pareceu-me que de repente o mundo suspendia a respiração e o tempo se detinha. A bela aproximou-se, caiu de joelhos diante de mim e abraçou-me os pés. 

-Ó, senhor – respondeu – pertenço somente a ti. Faze comigo o que aprouver a teu coração. Mas antes jura-me que obedeces e sempre obedecerás à tua vontade, e não à de outros. 

-Eu o juro por Deus todo-poderoso – disse eu.

Ela riu.

-Como podes jurar por esse nome? – perguntou zombeteira – Se Ele é todo-poderoso, as coisas acontecem de acordo com Sua Vontade, e não de acordo com a tua. 

-Sutilezas! – exclamei, rindo também.

Quis atraí-la para o meu lado sobre as almofadas de seda, mas ela defendeu-se habilmente e escapou de minhas mãos como uma serpente.

-Primeiro, o juramento!

-Em nome de quem ou de que hei de jurar para satisfazer-te? A impaciência tomava conta de mim.

-Jura pela luz dos teus olhos – ordenou ela, e em seus lábios surgiu um traço de crueldade. 

Eu, enlouquecido por saciar minha sede no poço de seu jardinzinho do paraíso, obedeci. 

Então, ela foi tirando véu após véu até que nenhuma parte de seu corpo branco como o leite ficou oculto a meu olhar. Em seguida veio, inclinou-se sobre mim e seu cabelo negro como a noite cobriu-nos como uma tenda. Por fim, ela aproximou seu rosto do meu e descobri que as pupilas de seus olhos eram fendas verticais nas quais rebrilhava uma luz esverdeada. Quando abriu os lábios para beijar-me saiu por entre eles uma longa língua bífida. Compreendi que havia caído no poder de Íblis, e tamanho foi meu susto que caí para trás, enquanto meu espírito escurecia.

Senti que era levado pelo ar, por sobre países e mares. A Terra desapareceu, e a viagem vertiginosa tomou o rumo do espaço estelar. Também as estrelas desapareceram, e fiquei cercado de escuridão e vazio.

Estive por muito tempo flutuando nas trevas. Finalmente percebi uma luz esverdeada. Reconheci nela o mesmo brilho das pupilas da dançarina que me havia fulminado. Agora, entretanto, a luz era onipresente e não pude distinguir de onde provinha. Fechei os olhos, pois ela me fazia sentir dor. E assim passou-se algum tempo até que reconheci o lugar em que estava. 

Encontrava-me sobre um leito circular, no meio de uma gigantesca sala, também circular, fechada por uma cúpula. Não sei como descrever a sensação de abandono total e definitivo que me invadiu. Os muros eram lisos e brancos, assim como a monumental cúpula e o chão de mármore. Não havia janelas, mas no muro que fechava a sala em ampla curva alinhavam-se diversas portas. Todas fechadas. 

Ouvi então uma voz incorpórea, semelhante ao silvo de uma serpente, que provinha de múltiplos lugares: 

-Aqui, altivo jovem, é o único lugar do universo que a vontade de Alá não alcança. Assim como uma diminuta bolha de ar na imensidão do oceano se encontra livre do úmido sal, assim este espaço no qual de agora em adiante estarás escapa ao poder e à sabedoria do Eterno. Eu, o espírito da liberdade absoluta, o criei como templo da subversão e da egolatria. Aproveita a oportunidade e mostra-te digno de meu convite. 

Estas palavras me assustaram, pois não havia caído sob o poder daquele cachorro grego a ponto de admitir tais blasfêmias. Mas não me atrevi a responder porque me aterrorizava a idéia de confirmar com o som de minhas palavras que houvesse realmente ouvido aquilo. 

Parecer-te-á compreensível, ó senhor meu, que meu primeiro pensamento fosse o de fugir o mais rapidamente possível de tão infausto lugar. Outro homem teria se encomendado à proteção e ao auxilio de Alá, e Ele o teria guiado segundo Sua Vontade, mas a mim este refúgio estava negado. Aqui começou minha desgraça. 

Havia muitas portas pelas quais fugir, e precisamente isso me confundia. Se houvesse apenas uma, teria tentado abri-la imediatamente. Devia existir uma razão para que houvesse tantas portas. Eu tinha a possibilidade de escolher, mas com cautela, já que em cada uma delas poderia haver uma armadilha. 

-Fazes bem em duvidar – disse a voz incorpórea como se lesse os meus pensamentos – Pode ser que atrás de uma porta se esconda um sanguinário leão que te despedace, atrás de outra floresça um jardim habitado por fadas que te presentearão milhares de carícias amorosas; que, pelo contrário, atrás da terceira te espere um escravo negro gigantesco para cortar tua cabeça com uma espada, e assim sucessivamente. Não digo que seja assim, mas pode ser que seja. De qualquer forma, tu escolherás o teu destino. Escolhe bem! 

Sem abandonar o leito, girei lentamente para estudar uma porta após a outra, mas todas eram idênticas. Meu coração vacilava entre a angústia e a esperança. 

Podia confiar na voz? Talvez mentisse. Talvez todas as portas estivessem trancadas, exceto uma, aquela que eu tinha que encontrar. Era evidente, por outro lado, que olhos invisíveis me observavam. Para começar, devia descobrir qual porta me oferecia a possibilidade de fugir; a seguir, teria que aguardar um momento propício. O mais importante era manter a calma, disse a mim mesmo. Mas também era possível que a única porta não trancada fosse, a cada hora, ou mesmo a cada instante, uma porta diferente. Ou talvez todas as portas estivessem abertas e eu pudesse escolher qualquer uma delas. No entanto, por que havia tantas? Meus pensamentos giravam em círculo.

Tinha de fazer alguma coisa para sair daquela situação. Levantei-me do leito, atravessei a sala e parei diante de uma das portas sem atrever-me a pôr a mão na maçaneta. Dei alguns passos até a próxima, depois até a seguinte. Não havia razão concreta para preferir uma a outra, e diante de cada uma delas assaltou-me o medo da possibilidade de escolher a pior. Fui andando de porta em porta até dar a volta completa, sem chegar a uma decisão. 

Comecei então a contar as portas, sem saber em que medida conhecer seu número me auxiliaria a sair de meu desespero. Em pouco tempo tive que interromper a experiência, pois, coma era impossível saber em qual porta havia começado a contar, ignorava em qual terminar. Tive a idéia de tirar uma de minhas sandálias bordadas em ouro e deixá-la diante de uma das portas. Percorri o círculo e quando novamente cheguei ao ponto onde se encontrava a sandália havia contado 111 portas. Estremeci. Pois agora sabia que aquele lugar era o círculo do caos (7). 

Calcei-me rapidamente, fui ao leito no centro da sala, deitei-me nele e fechei os olhos para refletir. 

Havia acabado de fazê-lo quando ouvi a voz incorpórea:

-Decide-te, porque senão ficarás aqui para sempre. 

Não restava dúvida: a única maneira de saber alguma coisa sobre as portas era arrancar informação de meu invisível carcereiro. Seria necessário agir com o maior tato. Perguntei, com aparente indiferença: 

-Tem alguém aí? 

-Não – respondeu a voz. 

Houve um longo silêncio. Esforcei-me para dar firmeza à minha voz:

-Que bobagem! Seja lá quem fores, se dizes “não” isto quer dizer que és alguém e não és “ninguém”! 

A voz respondeu imediatamente:

-Ó mestre do engenho, fazes-me mergulhar na confusão. Podes demonstrar o que afirmas? 

-Para quê? – repliquei – Não se demonstra o óbvio. Ninguém não pode dizer “não”. 

-Se for como dizes – prosseguiu a voz – seria verdadeiro o contrário? 

-Claro. 

-Então afirmas que ninguém pode dizer “sim”? – perguntou a voz.

-Não!

-Não?

-Sim, quer dizer, não.

-Vamos ver: sim ou não? Ou acaso queres dizer que sim é a mesma coisa que não? 

-Quero dizer que ninguém, por ser ninguém, pode dizer sim ou não. 

-Se é que compreendo bem a tua conclusão, queres dizer que apenas alguém, na medida em que é alguém, pode dizer sim ou não? 

-Isso mesmo – eu disse.

-Bem. – continuou a voz – Foi o que eu fiz. Eu disse que não. Por quê, então, insinuas que digo bobagens? 

-Porque – disse eu, já exausto – ninguém pode responder à pergunta sobre se há alguém com um “não” sem cair em contradição. 

-Perdoa-me, ó caudilho dos pensamentos – replicou a voz – mas não será que és tu quem se contradiz? Acabas de explicar-me que ninguém pode dizer sim ou não… 

-Eu não disse isso! – gritei.

-Ah, não? – perguntou a voz – E o que disseste? O que pretendes demonstrar? 

Tapei os meus ouvidos, mas continuava a ouvir a voz sibilante que me penetrava o cérebro: 

-Por que dizes constantemente o que não queres dizer? Ou acaso queres dizer que não sabes o que queres dizer? Por favor, esclarece-me isto. 

Quiçá te cause estranheza, ó califa, que meu invisível guardião tentasse confundir-me de maneira tão grosseira. Mas o mal tem os seus métodos para tentar o homem e quebrar a sua resistência. De nada me serviu esconder a cabeça debaixo do travesseiro de seda de meu leito: não havia forma de calar aquela voz. Quando eu não respondia, ela repetia sua última pergunta cem ou mil vezes, sempre igual, sem ênfase, sem alterar o tom. E quando por fim decidia-me a responder ela tergiversava – dissesse eu o que dissesse – até que minhas palavras perdiam o sentido e o significado e se tomavam apenas sons vazios. Então as perguntas eram retomadas. 

-Já sei o que pretendes! – gritei – Queres que eu perca a razão! 

-Quem? -Perguntou a voz.

-Tu, tu, tu! – exclamei – És Íblis, o espírito do mal.

– De quem falas? Aqui não há ninguém, como já sabes. Eu não existo e vou demonstrá-lo. Se eu existisse, isto se deveria à vontade do Todo-Poderoso. No entanto, Ele não pode desejar o mal, pois então Ele próprio seria malvado. Se eu, por outro lado, existisse contra a Sua vontade, ele não seria Todo-poderoso, mas apenas parte de um todo, e eu seria o Seu oposto. Um não poderia existir sem o outro e, ao mesmo tempo, nos anularíamos mutuamente. Portanto, não existimos, nem Ele nem eu. 

Desta vez não me deixei arrastar a discutir com a voz.

-Não conseguirás manter-me prisioneiro. Vou-me.

-Parte tranqüilamente – disse ele. O que te faz pensar que desejo reter-te? Há muitas portas. Basta que escolhas uma.

-Não estão fechadas? 

-Ainda não. Isto é, nenhuma estará fechada enquanto não abrires uma delas. 

-E depois que eu abrir uma? 

-Aí então todas as outras se fecharão no mesmo instante. E não haverá volta.  Escolhe bem. 

Reuni todas as minhas forças, pois sentia que minha capacidade de decisão ia se esvanecendo no diálogo com o invisível. Arrastei-me até uma das portas e levei a mão à maçaneta. 

-Espera! – sussurrou a voz. 

-Porquê? – perguntei, e deixei cair a mão assustado.

-Pensa bem no que vais fazer. Depois será tarde demais.

-Porque não esta? 

-Acaso eu a desaconselhei? Dizei-me primeiro por que escolhes precisamente essa. 

Duvidei. 

-Como todas são iguais, dá na mesma sair por esta ou por outra. 

-Antes de abri-las todas são iguais, mas depois não – respondeu a voz. 

-Aconselha-me – pedi. 

-A quem pedes conselho? Descobrirás o que te espera do outro lado da porta se a abrires. Ao mesmo tempo renuncias à possibilidade de saber o que te esperava atrás das outras portas, já que no mesmo instante elas se fecharão. 

Quase chorando, gritei:

-Então, não há nenhuma razão para uma determinada escolha? 

-Nenhuma – respondeu a voz – exceto aquela por que optares por tua livre e espontânea vontade. 

-Como tomarei uma decisão se não sei aonde ela me conduz? 

Ouviu-se um murmúrio seco, como uma gargalhada incorpórea. 

-Alguma vez chegaste a sabê-lo? Sim, acreditaste durante toda a tua vida ter razões para decidir-te por isto ou aquilo, porém na verdade nunca podias prever se aconteceria o que esperavas. As tuas sólidas razões não eram senão sonhos ou elucubrações. O homem é cego e todas as suas ações são realizadas na escuridão. Uma pessoa celebra o seu casamento e não sabe que dois dias depois estará viúva. Outra quer enforcar-se, acossada por suas dividas e necessidades, e não sabe que a solução que haverá de torná-lo um homem rico já está a caminho. Conheces a história da ferradura que Sherazade conta ao sultão? 

-Sim, conheço-a – respondi prontamente.

-Bem, por isso se diz que todas as decisões que o homem toma estão prefiguradas no plano universal de Alá desde o começo dos tempos. Ele – segundo dizem – te inspira cada uma de tuas decisões, sejam néscias ou sábias, pois Ele te conduz segundo a Sua Vontade, como a um cego. Aqui estás à margem dela e a mão de Alá não te guiará. 

Levantei-me e passeei novamente pelo círculo de portas sem poder me decidir. O excesso de possibilidades paralisava-me. Então, recitei os seguintes versos (8): 

“Somos prisioneiros, condenados a escolher

dentre inúmeras incertezas

que nos atormentam.

Não pode o homem decidir com fundamento,

desconhecendo o futuro.

Ainda que o conhecesse, seus passos

estariam determinados

porque tudo está determinado,

de modo que tampouco poderia escolher.

Somente o Senhor do Universo possui o saber.

Ele guia os planetas e conduz nossas almas como Ele quer.”

Após andar em círculo por horas intermináveis, a exaustão me prostrou em meu leito. Passei ali muitos dias e noites imóvel, desejando estar morto para escapar assim à voz incorpórea que não cessava de insistir para que eu tomasse uma decisão. De tempos em tempos caía num sono obtuso, do qual me despertava a voz sussurrante à renovada tortura da eleição impossível. Encontrava então junto ao meu leito uma mesinha com comida sem que nunca descobrisse como havia chegado ali. Para minhas necessidades dispunha de um recipiente que era regularmente esvaziado e limpo.

Apesar de não me faltar nada do que era necessário para viver, minhas forças declinavam como a chama de uma lâmpada a óleo numa masmorra sem ar. Meu cabelo e minha barba tornaram-se grisalhos, meus olhos ficaram cobertos por um véu. Comecei a procurar sinais misteriosos que me guiassem na minha escolha. Estudava, por exemplo, a ordem dos alimentos e bebidas sobre a mesinha para deduzir dela alguma mensagem possível. Fazia complicados cálculos com sua posição, número e forma. Dediquei-me até a analisar meus próprios excrementos esperando encontrar neles uma chave do destino. Toda superstição nasce da necessidade de decidir sem que se tenha a força que isso requer, e por isso é obra do diabo.

É evidente, ó senhor Califa, que aqueles truques não me auxiliavam, pois tudo o que eu interpretava como sinais ou avisos era anulado por sinais e avisos contrários. Acontecia-me como ao burro de Abu Ali Dhan (9), que morreu de fome entre dois montes de feno porque, sentindo-se atraído por ambos, não se decidia por nenhum. Eu não passava fome e as minhas possibilidades de escolha eram maiores, o que tomava ainda mais penosa a minha situação.

Implorei, supliquei, gemi como um cachorro espancado, humilhei-me de todas as maneiras imagináveis diante de meu invisível carcereiro (que na realidade não me retinha) para movê-lo a amenizar um pouquinho a carga cada vez mais insuportável da decisão. Meu torturador, no entanto, brincava com a minha fraqueza.

-Escuta – disse ele – já é demasiado tarde para as tuas súplicas. Ainda que te ordenasse abrir esta ou aquela porta, terias que decidir por ti próprio entre confiar em mim ou não, entre seguir ou não o meu conselho. Mesmo que estivesse disposto a aconselhar-te não poderia auxiliar-te.

-Ao menos tenta – implorei.

-Bem, não quero que digas que recusei dar-te uma oportunidade. Segue andando até a porta número 72.

Percorri as portas contando com afã.

-É esta? Articulei com dificuldade.

-Deste a volta pela esquerda – disse a voz – mas trata-se da número 72 girando pela direita. 

Corri pois girando para trás pelo lado direito até chegar ao número um; a seguir continuei na mesma direção, contando até atingir o número 72. 

-Esta? – perguntei.

-Não – respondeu a voz – Esqueceste o zero e erraste na conta. 

-Não pode haver uma porta zero – protestei.

-Ah, não? – foi a resposta – Queres que o demonstre?

-Não! Não! 

-Então começa de novo.

Como havia errado na conta já não podia encontrar com certeza a primeira porta. Havia contado uma a mais ou uma a menos? Tive a súbita convicção de haver desperdiçado, por descuido, a única indicação útil. Lágrimas de raiva e de frustração encheram-me os olhos e bati muitas vezes a minha fronte contra o chão. Compreendi que o espírito maligno brincava comigo. No entanto, sentia-me incapaz de maldizê-lo, pois ele nada havia feito senão ceder às minhas súplicas infantis. A partir desse momento guardei silêncio e não respondi mais à voz, que continuava falando sozinha. 

Não quero cansar teus ouvidos, ó senhor Califa. O simples fato de que eu esteja aqui a falar contigo demonstra que o Misericordioso -Louvado seja Seu Santo Nome! – não havia decidido abandonar-me naquele infausto lugar para sempre. Ainda hoje não sei dizer se foram anos, décadas, séculos ou unicamente um instante o que passei ali onde o tempo não existia. Minha barba e meu cabelo tornaram-se brancos como a neve, minha pele estava enrugada, e meu corpo, velho e decrépito, tal como me vês agora diante de ti, ó califa. Exausto da constante e insensata luta contra as correntes de minha liberdade já não esperava nem temia nada, não desejava nem fugia de nada. A morte me era tão grata quanto a vida, a honra não significava mais que a vergonha, a riqueza me era tão indiferente quanto a pobreza. 

Meu interesse pelas portas foi esmorecento, e já quase nem as olhava. Foi assim que não me dei conta de que algo estava se passando com elas. Um dia, ao acordar, descobri que seu número havia diminuído. Havia somente 84. A partir daquele momento repeti a conta a cada vez que acordava, e o número de portas era sempre menor. Nunca vi como desapareciam nem tampouco encontrei no muro qualquer sinal de sua antiga existência. Era como se as portas desaparecidas jamais houvessem existido. 

Depois de tudo o que relatei, Ó senhor Califa, pensarás talvez que, perdidos o temor e a esperança, ser-me-ia fácil levantar-me e abrir uma porta qualquer das poucas que ficavam. Mas aconteceu o contrário. Como tudo dava na mesma para mim, carecia de motivo para decidir. Se no princípio o medo do incerto havia me paralisado, agora a indiferença diante do que pudesse acontecer impedia-me de fazer uma escolha. 

Quando por fim restavam apenas duas portas, nos lados opostos da sala, constatei desinteressadamente que, no fundo, escolher entre inúmeras possibilidades desconhecidas ou entre duas era o mesmo. Ambas as coisas eram impossíveis. Quando restava apenas uma porta reconheci que, quisesse eu ou não, teria que decidir se iria me retirar ou ficar. 

Fiquei.

Ao acordar na vez seguinte já não havia portas. O muro mostrava-se liso e branco. A voz incorpórea calou-se. Um silêncio total e eterno me cercou. Estava convencido de que a partir daquele momento já nada se alteraria, de que havia alcançado o definitivo estado da exclusão de todos os mundos, de cá e do além. 

Então, joguei-me ao chão chorando e pronunciando estas palavras: 

– Sou-Te grato, ó Misericordioso, Altíssimo e Santíssimo, por haveres me curado do auto-engano e teres me tirado a carga da falaz liberdade. Agora que já não posso nem devo escolher resulta-me fácil renunciar para sempre à minha vontade e submeter-me à Tua Santa Vontade sem queixar-me e sem pretender compreender. Se foi Tua mão o que me conduziu a este cárcere e me fechou para sempre entre estes muros, aceito-o humildemente. Renuncio para sempre à falsidade do livre arbítrio, pois é uma serpente que devora a si própria. A liberdade total é a falta total de liberdade. Todo o bem e toda a sabedoria estão em Alá, o Todo-poderoso e o Único, e fora d’Ele não há nada. 

Caí num estado semelhante à morte, mas quando, ao cabo de sabe-se lá quanto tempo, voltei a mim, encontrei-me como um mendigo em Bagdá, onde tu, ó senhor, ouviste a minha história. Desde aquele dia levo o nome de Insh’allah, e assim é como sou chamado.” 

O califa contemplou o mendigo assombrado e disse:

-Extraordinário! Teu relato será escrito. Pede-me um presente, que concederei o que desejares. 

O mendigo alçou seus olhos brancos como o leite para o Senhor de todos os crentes e respondeu com um sorriso: 

-Alá recompense tua generosidade, senhor. Mas o que podes dar-me, se possuo o que de mais grandioso um homem pode possuir? 

O califa assombrou-se ainda mais ao ouvir estas palavras e ficou calado durante longo tempo. Por fim, disse a seu vizir(10): 

-Parece-me que o que aconteceu a este homem foi um desígnio de Alá – louvado seja o Seu nome! – no sentido de conduzi-lo à única riqueza verdadeira. 

-Parece-me o mesmo, senhor – respondeu o vizir

-Se for assim – prosseguiu o califa – dize-me uma coisa: quando Íblis, o mentiroso, declarou que a prisão da liberdade era o lugar do qual o poder de Alá se encontrava excluído, como uma bolha de ar no oceano, mentia ou dizia a verdade? 

-Nem mentia nem dizia a verdade, ó senhor – respondeu o vizir.

-Como haverei de compreendê-lo? – perguntou o califa.

-Se realmente existe um lugar que não se encontra preenchido pela vontade do Todo-Poderoso – disse o vizir – existe unicamente por vontade d’Ele. Mas por isso mesmo a Sua vontade está nesse lugar, porque sem ela nada pode existir, e tampouco esse lugar. A Sua ausência é a Sua presença. Na perfeição do Altíssimo não há contradição, embora ao limitado espírito humano assim o pareça. Por isso Íblis, o que confunde, tem de servi-Lo e não existe sem Ele. 

-Verdadeiramente – exclamou o califa – Alá é Alá e Maomé é Seu profeta. 

E inclinou-se diante do mendigo e afastou-se sem lhe dar esmola. 

lnsh’allah sorriu.

Notas: 

1. Extraído da obra: La prisión de la Libertad. Michael Ende -Santillana, Alfaguara, 1993. Traduzido do alemão por Genoveva Dieterich do original: Das Gefängnis der Freiheit (c) by Weitbrecht Verlag,  Stuttgart – Wien. 

2. Soberano muçulmano. 

3. O demônio islâmico (nota do autor).

4. A noite do poder divino  (n.a.).

5. Salão (n.a.). 

6. Moça do paraíso que se toma virgem a cada manhã (n.a.). 

7. Segundo a numerologia oriental, 111  é o número do caos. (n.a.). 

8. Dos gazéis de Nureddin al Akbar: (n.a.). (“Gazel”é uma espécie de ode dos persas e árabes). 

9. Sem dúvida, refere-se aqui a Buridán. (n.a.). (Buridán foi um filósofo escolástico francês do séc. XIV. A ele é atribuída a fábula do burro que, sentindo fome e sede ao mesmo tempo, morreu entre uma porção de aveia e um balde de água por não saber qual escolher primeiro).

10. Ministro de príncipe muçulmano.

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