Capítulo V

A ÚLTIMA CEIA E O LAVA-PÉS

OS Evangelhos, que relatam a história da Iniciação Mística Cristã, contam-nos como numa noite, quando Cristo participava da última ceia com Seus discípulos no término do seu Ministério, Ele ergueu-se da mesa, muniu-se de uma toalha, despejou água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés, num ato do mais humilde serviço, porém da mais alta significação oculta.

Quando ascendemos na escala da evolução, poucos percebem que atingimos esse feito porque calcamos os corpos de nossos irmãos mais fracos; consciente ou inconscientemente pisamo-los e usamo-los como trampolins para atingir nossos próprios objetivos. Isso acontece em todos os reinos da Natureza. Quando uma onda de vida é conduzida ao nadir da involução, ficando encrustrada na forma de mineral, é imediatamente apoderada por outra onda de vida ligeiramente superior, que recebe o desintegrante cristal mineral, transforma-o em cristalóide e assimila-o como parte de uma forma vegetal. Se não houvessem minerais para desintegrar-se e transformar-se, a vida vegetal seria impossível. Da mesma maneira, as formas vegetais são absorvidas por numerosas classes de animais, são trituradas, reduzidas a uma pasta, consumidas e transformadas para servir de nutrição a esse reino mais elevado. Se não houvessem plantas, o reino animal não existiria. Pelo mesmo princípio, na evolução espiritual, se não houvessem discípulos numa esfera inferior tentando galgar os degraus do conhecimento através da instrução, não haveria necessidade de um mestre. Porém, precisamos notar aqui uma diferença muito importante. O professor cresce dando e servindo aos seus alunos. Através deles, ele também alcança um degrau mais alto na escala do conhecimento. Eleva-se, elevando-os. Não obstante, tem uma dívida de gratidão para com eles, que é simbolicamente reconhecida pelo lava-pés - um ato de serviço humilde aos que o serviram.

Devemos entender que a natureza é a expressão de Deus. Ela está continuamente empenhada em criar e expandir-se. Também devemos nos conscientizar que quem mata alguma coisa, por pequena e aparentemente insignificante que seja, de algum modo age contra o plano de Deus. Isto se aplica de modo particular ao aspirante a uma vida superior e, por esse motivo, o Cristo exortou os Seus discípulos a serem sábios como as serpentes mas inofensivos como as pombas. E não importa quão honestos sejam os nossos propósitos de seguir os preceitos de não prejudicar; nossa constituição e necessidades obrigam-nos a matar em todos os momentos de nossas vidas, e não são somente nas grandes coisas que amiúde cometemos assassinatos. Seria praticamente fácil para a alma que busca, simbolizada por Parsifal, quebrar o arco com o qual havia matado o cisne dos Cavaleiros do Graal, uma vez que eles lhe explicaram o erro em que incorrera. Desde aquele momento, Parsifal dedicou-se a viver uma vida inofensiva, considerando os fatores nisso envolvidos. Todos os aspirantes zelosos seguem-no de bom grado nesse ato, urna vez que começaram a compreender quão destrutiva é essa prática de compartilhar do alimento que requer a morte de um animal.

Porém, mesmo os mais nobres e bem intencionados homens estão, em cada respiração, envenenando constantemente os que os rodeiam e, por sua vez, estão sendo envenenados por eles, pois todos exalam o venenoso e mortífero dióxido de carbono. Por isso, somos uma ameaça uns aos outros. Não se trata de uma idéia extravagante. Pelo contrário, é um perigo real que se manifestará muito mais com o correr do tempo, quando o corpo do homem ficar mais sensível. Em um submarino danificado ou sob condições similares onde haja um aglomerado de pessoas, o dióxido de carbono por elas exalado, em pouco tempo tornará o ar impróprio para manter a vida. Há uma história sobre uma insurreição na índia, em que certo número de prisioneiros ingleses foram amontoados num cubículo onde havia uma só brecha por onde penetrava algum ar. Rapidamente o oxigênio esgotou-se e os pobres prisioneiros começaram a lutar entre si como animais a fim de alcançar um lugar próximo àquela abertura, e quase todos morreram pela luta e posterior asfixia.

O mesmo princípio configurava-se no antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto, onde um odor nauseante e uma fumaça sufocante provinham do Altar dos Sacrifícios, quando os corpos carregados de veneno das vítimas sacrificadas pelo pecado de seus ofertantes eram consumidos, e onde a luz brilhava fracamente através da fumaça que a envolvia. Isto está em pleno contraste com a luz clara e brilhante do Candelabro de Sete Braços, alimentado com o puro azeite de oliva extraído da planta pura, e onde o incenso, simbolizado pelo serviço voluntariamente prestado pelos devotados sacerdotes, elevava-se aos céus com um suave aroma. Como já foi dito em outras ocasiões, a fragrância desse incenso agradava a Divindade, enquanto o sangue das vítimas, os touros e as ovelhas, eram uma fonte de desgosto e pesar a Deus, que se deleita mais com o sacrifício da prece que favorece o devoto e a ninguém causa dano.

Já ouvimos falar de alguns santos que exalavam um suave odor, e repetimos que isto nada tem de fantástico - é um fato oculto. A grande maioria da humanidade aspira em todos os momentos da vida o oxigênio vitalizante contido na atmosfera circundante. A cada expiração exalamos uma carga de dióxido de carbono que é um veneno mortal e que certamente viciaria o ar se a casta planta não absorvesse esse veneno, usando parte dele para construir corpos que permanecem por séculos e até milênios, como as sequóias da Califórnia, devolvendo-nos o restante em forma de oxigênio puro que necessitamos para viver. Essas plantas carboníferas, por um processo ulterior da natureza, foram no passado mineralizadas, tornando-se pedras em vez de se desintegrarem. Encontramo-las hoje como carvão - a perecível Pedra Filosofal elaborada por meios naturais nos laboratórios da natureza. Porém, a Pedra Filosofal também pode ser construída artificialmente pelo homem e por seu próprio corpo. Devemos entender definitivamente que a Pedra Filosofal não é elaborada num laboratório químico externo, mas que o corpo físico do homem é o laboratório do Espírito que contém todos os elementos necessários para produzir este elixir da vida. A Pedra Filosofal não está na parte exterior do corpo, mas é o próprio alquimista que se torna a Pedra Filosofal. O sal, o enxofre e o mercúrio, emblematicamente contidos nos três segmentos da coluna vertebral que controla os nervos simpático, motor e sensorial, são governados pelo Fogo Espiritual Espinhal de Netuno, constituindo os elementos essenciais no processo alquímico.

Não há necessidade de argumentos para demonstrarmos que a indulgência com a sensualidade, a brutalidade e a bestialidade degeneram o corpo. Pelo contrário, a devoção para com a Divindade, uma atitude constante de prece, um sentimento de amor e compaixão por tudo que tem vida e movimento, pensamentos de amor enviados a todos os seres, são inevitavelmente devolvidos com o mesmo sentimento. Tudo isso purificará e espiritualizará nossa natureza. Referimo-nos a uma pessoa desta espécie como de alguém que consegue respirar e irradiar amor, cuja expressão descreve muito mais do que possamos imaginar. Observamos também que a quantidade de veneno contido na respiração de uma pessoa, está na proporção direta da perversidade existente em sua natureza, de sua vivência interior e de pensamentos que emite. O iogue hindu, em certo grau de seu desenvolvimento, é encerrado numa caverna, não muito maior que seu corpo. Deverá ficar ali durante semanas respirando muitas e muitas vezes o mesmo ar, para demonstrar que ele cessou de exalar o mortífero dióxido de carbono e está começando a construir seu corpo a partir disso.

A Pedra Filosofal entretanto, não é um corpo da mesma natureza da planta, embora seja pura e casta. É um corpo celestial, como ao que São Paulo se refere no quinto capítulo da segunda Epístola aos Coríntios, um corpo que se torna imortal como um diamante ou um rubi. Não é duro e inflexível como o mineral; é um diamante macio ou um rubi, e para cada ato altruísta dessa natureza, o Cristão Místico está construindo esse corpo, embora ele provavelmente esteja inconsciente disso por muito tempo. Quando atingir esse ponto de Santidade, não terá necessidade de lavar os pés de seus discípulos que o ajudaram a elevar-se. Mas terá sempre o sentimento de gratidão simbolizado por aquele ato, e também o reconhecimento de todos que tiveram o privilégio de ser atraídos como seus discípulos, aos quais ele deverá dar o pão da vida que nutre e conduz à imortalidade.

Os estudantes, devem compreender que isto é parte do processo que eventualmente culmina na Transfiguração, mas também devem entender que na Iniciação Mística Cristã não existem graus definidos. O candidato vê o Cristo como o autor, princípio e fim de sua fé, procurando imitá-Lo e seguir Seus passos em todos os momentos de sua existência. É assim que os diversos estágios que estamos considerando são alcançados pelo processo do crescimento da alma que, simultaneamente, o levam aos mais elevados graus espirituais. Nesse aspecto, uma Iniciação Mística Cristã intelectual, difere radicalmente do processo usual dos Rosacruzes, onde o entendimento e a compaixão por parte do candidato são indispensáveis. Mas, chega o momento em que o Cristão Místico deve conhecer e entender o Caminho colocado diante dele, e isso é o que constitui o Getsêmani, que consideraremos no próximo capítulo.

Capítulo VI

GETSÊMANI, O HORTO DA AGONIA

E quando eles entoaram um hino, dirigiram-se ao Monte das Oliveiras. "Então, disse-lhes Jesus: A todos vós eu serei esta noite motivo de escândalo, pois está escrito: Ferirei o Pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas, depois que eu ressuscitar, preceder-vos-ei na Galiléia.

"E Pedro disse-lhe: Ainda que todos se escandalizem a teu respeito, eu não me escandalizarei.

"E Jesus respondeu: Em verdade te digo, que hoje nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu negar-me-ás três vezes.

"Mas ele insistiu mais veementemente: Ainda que me seja preciso morrer contigo, não te negarei. E todos diziam o mesmo.

"E chegaram a um horto, chamado Getsêmani. E Jesus disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto eu oro. E levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a sentir pavor e abatimento. E disse-lhes: A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai. E tendo-se adiantado um pouco, prostrou-se por terra; e pedia que, se fosse possível, aquela hora se afastasse d'Ele. E disse: Abba, Pai, todas as coisas Te são possíveis, afasta de mim este cálice; porém, não se faça o que Eu quero, mas o que Tu queres. E voltou e encontrou-os dormindo. E disse a Pedro: Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O Espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca". - Marcos 14:26-38.

Neste trecho narrativo dos Evangelhos encontramos uma das mais tristes e difíceis experiências do Cristão Místico, delineada em forma espiritual. Durante toda a sua experiência anterior, ele vagueou cegamente, isto é, cego no, sentido de que estava no Caminho. No entanto, sabia que este caminhar, quando resolutamente seguido, conduz a uma meta definida, embora também seja muito afetado pelo sofrimento da humanidade. Cristo concentrou todo seu esforço em aliviar as dores físicas, morais e mentais dos outros; Ele os serviu com toda dedicação; ensinou-lhes o evangelho do amor: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo", e sempre foi um exemplo vivo para todos na prática deste mandamento. Reuniu em torno de si um pequeno número de amigos, aos quais amou com a mais terna afeição. Ensinou-os e serviu-os conscientemente até a cerimônia do lava-pés. Entretanto, durante esse período de serviço, Ele sentiu-se tão impregnado pelas tristezas do mundo, que se tornou um Homem Sofrido, e de tal forma familiarizou-se com a dor, que padeceu mais do que qualquer outro ser.

Esta é também uma experiência do Cristão Místico, e é o fator mais importante para acelerar o seu progresso espiritual. Enquanto nos sentirmos importunados pelas pessoas que nos vêm trazer seus problemas, enquanto fugirmos delas enfadados evitando ouvir seus desabafos angustiados, estaremos bem longe do Caminho. Mesmo quando os ouvimos disfarçando nosso mau humor e proferindo poucas palavras de simpatia que soarão friamente em seus ouvidos, nada ganharemos em crescimento espiritual. É absolutamente essencial ao Cristão Místico que sintonize os sentimentos do mundo, que sinta cada dor em sua própria carne e em seu coração.

Quando Parsifal permaneceu no templo do Santo Graal e presenciou o sofrimento de Amfortas, o ferido Rei do Graal, ele ficou mudo, sentindo simpatia e compaixão mesmo depois do cortejo ter passado pelo átrio e, conseqüentemente, não pôde responder às perguntas de Gurnemanz. Seu profundo sentimento de fraternidade levou-o prontamente a procurar a lança que curaria Amfortas. Foi a dor de Amfortas, sentida no coração de Parsifal por compaixão, que o manteve firmemente no caminho da virtude quando a tentação se tornou mais forte. Foi a dor profunda da compaixão que o estimulou por muitos anos na procura do sofrido Rei do Graal. Finalmente, quando encontrou Amfortas, foi aquele sentimento amoroso que o capacitou a empregar com sabedoria o bálsamo curativo.

Assim como está demonstrado no mito-alma de Parsifal, assim também ocorre na vida e na experiência do Cristão Místico: ele deve beber profundamente do cálice da amargura até esgota-lo, de modo que as dores acumuladas em seu coração façam que se ofereça, sem reservas nem limites, ao serviço de cura, ajudando a todos. Então, o Getsêmani, o Horto da Agonia, será um lugar familiar para ele, lavado com as lágrimas da amargura e dos sofrimentos da humanidade.

Em todos os anos de auto-sacrifício, seu pequeno grupo de amigos foi um consolo para Jesus. Ele já aprendera a renunciar aos laços de sangue. "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? São todos aqueles que fazem a vontade de meu Pai". Muito embora nenhum Cristão verdadeiro deva negligenciar suas obrigações sociais ou recusar o amor de seus familiares, os laços espirituais são, sem dúvida, os mais fortes e através deles vem a coroa de sofrimentos. Pela deserção de seus amigos espirituais, ele aprende a beber até ao fim a taça da amargura. Ele não os culpa pela deserção, mas desculpa-os com as palavras: "O Espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca", pois sabe, por experiência própria, quão verdadeira é essa sentença. Mas Ele percebe, no sofrimento supremo, que eles não podem confortá-lo. Então, volta-se para a única fonte de conforto, o Pai no Céu. Ele chegou ao ponto em que a resistência humana parece ter atingido o seu limite, e reza pedindo clemência para a sua provação, mas, com uma confiança cega no Pai, Ele se curva à Sua vontade, oferecendo-se inteiramente, sem reservas.

Este é o momento da realização. Tendo bebido completamente do cálice da amargura, abandonado por todos, experimenta o temor medonho de estar absolutamente só, talvez a pior experiência da vida de um ser humano. O mundo parece envolvido em trevas. Ele percebe que, apesar de todo bem que fez ou tentou fazer, o poder das trevas está procurando derrubá-lo. Ele sabe que a turba, que dias atrás lhe acenou com "Hosanas", amanhã estará pronta a gritar "Crucificai-o, Crucificai-o". Seus familiares e agora Seus poucos amigos desapareceram e estavam prontos a negá-Lo.

Entretanto, quando nos encontramos no pináculo do sofrimento, também estamos mais próximos do Trono da Graça. As dores, tristezas, agonias e sofrimentos nascidos no seio do Cristão Místico, são mais preciosos e valiosos do que as riquezas das índias. Quando ele tiver perdido a companhia de todos os homens e se entregar inteiramente ao Pai, uma transformação ocorrerá: as penas irão transformar-se em compaixão, o único poder do mundo capaz de fortalecer um homem na escalada do Gólgota para dar sua vida pela humanidade, não como um sacrifício mortal, mas como um sacrifício vivente, elevando-se na medida em que elevar outros.

Capítulo VII

O ESTIGMA E A CRUCIFICAÇÃO

DISSEMOS em vários capítulos anteriores, que a Iniciação Mística Cristã difere radicalmente da Iniciação Oculta empreendida por aqueles que se aproximam do Caminho pelo lado intelectual. No entanto, todos os caminhos convergem para o Getsêmani, onde o candidato à Iniciação fica impregnado de dor e tristeza que se transformam e depois florescem em compaixão. Experimenta um ardente amor maternal que tem um único e absorvente desejo: sacrificar-se para aliviar o sofrimento do mundo; salvar e amparar os que são fracos; ajudar os que carregam muita carga; confortar seus semelhantes e proporcionar-lhes repouso. Neste momento, os olhos do Cristão Místico são abertos na plena compreensão das misérias do mundo e de sua missão de tornar-se um Salvador. O ocultista também descobre ali o sentido do amor, o único sentimento que transmite afeto, zelo e dedicação. Pela união da mente e do coração, ambos estão preparados para o próximo passo, que compreende a manifestação dos estigmas, a preparação necessária para a morte e ressurreição místicas. A narração dos Evangelhos relata a história dos estigmas nas palavras seguintes, cuja primeira cena desenrola-se no Horto de Getsêmani:

"Tendo Judas tomado a companhia de soldados e guardas, fornecidos pelos pontífices e fariseus, foi lá com lanternas, archotes e armas. Mas Jesus, que sabia tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-se e disse-lhes: A quem buscais? Responderam-lhe: A Jesus Nazareno. Disse-lhes Jesus: Sou eu... Então, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e manietaram-no. Primeiramente levaram-no à casa de Anãs... Entretanto, o pontífice interrogou-o sobre os Seus discípulos e Sua doutrina. Jesus respondeu-lhe: "Eu falei publicamente ao mundo... Por quê ma interrogas? Interroga aqueles que ouviram o que eu lhes disse; eles sabem o que eu ensinei. Agora Anás enviou-o manietado ao pontífice Caifás . . . Levaram, pois, Jesus, da casa de Caifás ao Pretório . . .

"Pilatos saiu fora para lhes falar e disse: Que acusação apresentais contra este homem? Responderam e disseram-lhe: Se este não fosse um malfeitor, não o entregaríamos nas tuas mãos . . . Então, Pilatos entrou no Pretório novamente e chamou Jesus; e disse-lhe: Tu és o rei dos Judeus? Respondeu Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo ou foram outros que te disseram de mim?... O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, certamente os meus ministros se haviam de esforçar para que eu não fosse entregue aos Judeus; mas o meu reino não é daqui. Disse-lhe então Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes, sou rei. Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade, ouve a minha voz. Disse-lhe Pilatos: Que coisa é a verdade? E, dito isto, tornou a sair para ir ter com os Judeus e disse-lhes: Não encontro nele crime algum. Ora, é costume que eu, pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que eu vos solte o rei dos Judeus? Então, gritaram todos novamente, dizendo: Não este homem, mas Barrabás. Ora, Barrabás era um ladrão. Pilatos então tomou Jesus e mandou que o açoitassem. E os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na sobre sua cabeça e revestiram-no com um manto de púrpura. Depois aproximavam-se dele e diziam: Deus te salve, rei dos Judeus e davam-lhe bofetadas.

"Saiu Pilatos outra vez fora, e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que conheçais que não encontro nele crime algum. Saiu, e eis Jesus trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. E Pilatos disse-lhes: Eis aqui o homem! Então, os ministros e os príncipes dos sacerdotes tendo-o visto, gritaram, dizendo: Crucificai-o, crucificai-o! Disse-lhes Pilatos: Tomai-o vós e crucificai-o, porque eu não encontro nele crime algum. Responderam-lhe os Judeus: Nós temos uma lei e, segundo a lei, deve morrer, porque se fez filho de Deus... Pilatos procurava soltá-lo. Porém, os Judeus gritavam dizendo: Se soltas este, não és amigo de César, porque todo aquele que se faz rei, é contra César... Eles gritavam: Tira-o, tira-o, crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Porque eu hei de crucificar o vosso rei? Responderam os pontífices: Não temos outro rei senão César. Então, entregou-o para que fosse crucificado. Eles tomaram Jesus e conduziram-no para fora. E, carregando sua cruz, saiu para um lugar que se chama Calvário, em hebraico Gólgota, onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado e Jesus no meio. E Pilatos escreveu também um título e o pôs sobre a cruz. E estava escrito: Jesus de NaZareth, o Rei dos Judeus".

Aqui temos o relato de como os estígmas ou as chagas foram produzidas no Herói dos Evangelhos, embora a sua localização não tenha sido descrita corretamente e o processo esteja representado de uma forma narrativa, diferindo amplamente da maneira como estes fatos realmente aconteceram. Realmente, estamos diante de um dos Mistérios que devem permanecer selados para o profano, ainda que os fatos místicos subseqüentes sejam tão claros como ,o é a luz do dia para aqueles que a conhecem. O corpo físico não é absolutamente o homem real. Tangível, sólido e dotado de vida como o vemos, é, na verdade, a parte mais morta do ser humano, cristalizado dentro de uma matriz de veículos mais sutis, que são invisíveis à nossa visão física atual. Se colocarmos uma bacia com água numa temperatura baixa , a água prontamente se converterá em gelo. Ao examinarmos esse gelo, encontraremos inúmeros e diminutos cristais com variadas formas geométricas e linhas de demarcação. Trata-se de linhas de força etérica, que estavam presentes na água antes desta se congelar. Do mesmo modo que a água endureceu e se modelou a essas linhas, assim também nossos corpos físicos congelam-se e solidificam-se ao longo das linhas de força etérica de nosso invisível corpo vital que, no curso normal da vida, se encontra emaranhadamente unido ao corpo denso - esteja ele desperto ou adormecido - até que à morte dissolva essa ligação. Mas, como a Iniciação implica na liberação do homem verdadeiro do corpo de pecado e da morte, a fim de que possa voar muito alto nas esferas mais sutis à sua vontade, e voltar no momento que desejar, é óbvio que antes que isto possa ser alcançado, antes que o objetivo da Iniciação se realize completamente, a engrenagem do corpo denso e do veículo etérico, que é tão forte e rígido na humanidade comum, precisa ser desfeita. Como essa união é mais forte e sentida na palma das mãos, no arco dos pés e na cabeça, as escolas de ocultismo concentram seus esforços para cortar a conexão em tais pontos e produzir os estígmas invisivelmente.

Ao Cristão Místico falta-lhe conhecimento de como atuar sem produzir manifestação exterior. O estígma desenvolve-se nele espontaneamente por sua devoção a Cristo e por seus constantes esforços em imitá-Lo em todos os momentos. Esse estigma externo não compreende somente as chagas das mãos, dos pés e também das costas, mas todas aquelas impressas na cabeça pela coroa de espinhos e pela flagelação.

O caso mais notável referente aos estigmas, é o que ocorreu no ano 1.224 a São Francisco, na montanha de Alverno. Estando absorto na contemplação da Paixão, ele viu um serafim deslumbrante aproximar-se, resplandecente em fogo e tendo entre suas asas a figura do crucificado. São Francisco surpreendeu-se ao ver suas mãos, pés e um. lado do corpo receberem externamente as marcas da crucificação. Essas marcas permaneceram nele durante dois anos até a sua morte; e muitas testemunhas oculares dizem que as viram, inclusive o Papa Alexandre II.

Os Dominicanos polemizaram o acontecimento, no entanto, reclamaram e exigiram a mesma credibilidade para Santa Catarina de Sena, cujos estigmas ficavam ` invisíveis por sua própria vontade. Os Franciscanos apelaram a Sixto IV para que não permitisse que os estigmas fossem apresentados ao público em geral, e o Papa assim o fez proibindo que esses estigmas fossem vistos. Ainda mais, o acontecimento dos estigmas consta do Breviário dos Ofícios, e Benedito XIII concedeu aos dominicanos urna festa para comemorar esse fato. Outras pessoas, principalmente mulheres, que têm o corpo vital positivo, dizem que possuem alguns ou todos os estigmas. A última a ser canonizada pela Igreja Católica por esta razão, foi Verônica Giuliana (1831) . Há casos mais recentes, como os de Anna Catherine Emmerich, que se tornou monja em Agnetenberg; a estática Maria Von Moerl de Caldero; Louise Lateau, cujo estígma dizem que sangrava todas as sextas-feiras; e Mrs. Girling da comunidade de Newport Shaker.

No entanto, sejam os estigmas visíveis ou invisíveis, o efeito é o mesmo. As correntes espirituais geradas no corpo vital da pessoa são tão poderosas, que o corpo é flagelado por elas, especialmente na região da cabeça, de onde produz um efeito parecido ao da coroa de espinhos. Devido a isso, a pessoa passa a ter a convicção de que o corpo físico é uma cruz que está carregando, uma prisão e não o homem real. Isto o conduz ao próximo passo da Iniciação, isto é, à crucificação, que é experimentada pelo desenvolvimento de outros centros em suas mãos e pés, onde o corpo vital é, então, separado do corpo denso.

Dissemos na narração tirada do Evangelho, que Pilatos colocou um letreiro na cruz de Cristo com as palavras: "Jesus Nazarenus Rex Judaeorem" e isto é traduzido normalmente como "Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus". Mas, a iniciais INRI colocadas sobre a cruz representam os nomes em hebraico de quatro elementos: Iam, água; Nour, fogo; Ruach, espírito ou ar vital; e labeshah, terra. Esta é a chave oculta do mistério da crucificação, pois ela simboliza, em primeiro lugar, o sal, enxofre, mercúrio e azoto, que foram utilizados pelos antigos alquimistas para fazer a Pedra Filosofal, o solvente universal, o elixir vitae. Os dois "is" (Iam e labeshah), representam a água salina lunar: a - em um estado fluídico que contém sal em solução; b - o extrato coagulado desta água: o "sal da terra"; em outras palavras, os sutis veículos fluídicos do homem e seu corpo denso. N (nour) representa o fogo em hebraico, e os elementos combustíveis, entre os principais o enxofre e o fósforo, são muito necessários à oxidação, sem os quais o sangue quente seria impossível. O Ego, sem esta condição de calor no sangue não poderia funcionar no corpo, nem conseguiria uma forma de expressão material. R (Ruach) é o equivalente a espírito em hebraico, isto é, o Azoth dos alquimistas, que funciona na mente mercurial. Assim, as quatro letras INRI, colocadas sobre a cruz de Cristo, de acordo com o relato dos Evangelhos, representam o homem composto, ó Pensador, no momento de seu desenvolvimento espiritual, quando começa a se libertar da cruz de seu veículo denso.

Ampliando mais a elucidação deste ponto, notamos que INRI é o símbolo do candidato crucificado pelas razões seguintes:

Iam, a palavra hebraica para água, o fluido ou elemento lunar, que constitua a maior parte do corpo humano (cerca de 87% ). Esta palavra é também o símbolo dos mais sutis veículos fluídicos do desejo e da emoção.

Nour, a palavra hebraica para fogo, é a representação simbólica do calor produtor do sangue vermelho, que está carregado de ferro, fogo e energia do marcial Marte, e esse sangue é visto pelo ocultista como um gás circulando pelas veias e artérias do corpo humano infundindo-lhe energia e ambição, sem as quais não haveria progresso espiritual nem material. Também representa o enxofre e fósforo necessários para a manifestação material do pensamento, como já foi anteriormente mencionado.

Ruach, a palavra hebraica para indicar o espírito ou ar vital, é um símbolo excelente do Ego envolvido pela :ente mercurial, que torna o ser humano homem, capacitando-o a controlar e dirigir seus veículos corporais e suas atividades de uma forma racional.

Iabeshah, a palavra hebraica para terra, representando a parte sólida, a carne do homem, e forma o corpo terrestre cruciforme, cristalizado dentro dos veículos mais sutis ao nascer e separado deles ao morrer no curso normal das coisas, ou em um acontecimento extraordinário pelo qual aprendemos a morrer misticamente e ascender às gloriosas esferas superiores por uns tempos.

Este estágio do desenvolvimento espiritual do Cristão Místico requer uma reversão da força criadora de seu curso normal, donde normalmente desperdiça energia para satisfazer suas paixões, uma corrente dirigida para baixo através do tríplice cordão espinhal, cujos três segmentos são regidos, respectivamente, pela Lua, Marte e Mercúrio, e donde os raios de Netuno acendem o Fogo Regenerador Espiritual da Espinha Dorsal. Esta consciente elevação coloca em vibração o corpo pituitário e a glândula pineal, abrindo a visão espiritual. Isto golpeia o sinus frontal, o que dá início aos efeitos da coroa de espinhos; o latejar da dor à medida que a ligação com o corpo físico é consumida pelo sagrado Fogo Espiritual, que desperta este centro de sua milenar letargia, começando a vibrar em direção a outros centros na estrela estigmatizada de cinco pontas. Elas também são vitalizadas e todos os veículos iluminam-se com o "Dourado Manto Nupcial". Então, num arranco final, o grande vórtice do corpo de desejos localizado no fígado fica livre, e a energia marciana contida nesse veículo impulsiona para cima o veículo sideral (assim chamado devido aos estigmas da cabeça, mãos e pés que estão situados na mesma posição dos da estrela de cinco pontas), o qual ascende através da caveira (Gólgota) enquanto o Cristão crucificado lança o grito triunfante: "Consummatum est" (está consumado), e começa a elevar-se às sublimes esferas siderais ao encontro de Jesus, cuja vida ele imitou com pleno êxito e de quem, desde então, é companheiro inseparável. Jesus é seu Mestre e seu guia para o reino de Cristo, onde todos estaremos unidos num só corpo para aprender e praticar a Religião do Pai, e onde no reino Ele possa ser Todo em Todos.


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