Capítulo III
A TENTAÇÃO
MUITAS vezes ouvimos os devotos cristãos queixarem-se de seus períodos de depressão. As vezes, encontram-se quase no sétimo céu da exaltação espiritual, pretendem ver a face de Cristo e sentem como se Ele guiasse todos os seus passos. De repente, sem motivo aparente ou qualquer aviso, o Salvador esconde Sua face e o mundo torna-se escuro por um período. Não podem trabalhar, não podem orar; a vida não tem atrativos, a porta do céu parece fechada para eles, e a existência torna-se sem interesse enquanto essa depressão espiritual persiste. Naturalmente, essas pessoas vivem de suas emoções e, sob a imutável Lei de Alternação, o pêndulo balança de um lado para o outro sem encontrar o equilíbrio. Quanto mais brilhante é a luz, mais profundas são as trevas; quanto maior a exaltação, mais profunda é a depressão do espírito. Somente aqueles que, por frieza ou indiferença, reprimem esse estado emocional, escapam do período de depressão, porém nunca experimentam a divina bem-aventurança da exaltação. E é esta efusão emocional de si mesmo que fornece ao Cristão Místico a dinâmica energia que o projetará nos mundos invisíveis, onde ele se torna um com o ideal espiritual que o atraiu e que despertou em sua alma o poder para elevar-se, do mesmo modo que o Sol formou o olho para que pudéssemos vê-lo. O filhote, ao sair do ninho, cai muitas vezes antes que aprenda a usar suas asas com segurança. O aspirante que trilha o caminho do Cristão Místico, pode elevar-se até ao trono de Deus freqüentemente, e depois cair no mais profundo abismo, no desespero do inferno. Mas, algum dia ele vencerá o mundo, desafiará a Lei de Alternação e elevar-se-á pela força do Espírito até ao Pai dos Espíritos, livre das lidas das emoções, envolvido pela paz que está além de toda compreensão.
Mas este final será alcançado somente após o GóIgota e o Batismo Místico, já comentado no capítulo anterior. Isto é apenas o começo da jornada do Cristão Místico, na qual ele se sente plenamente convencido do extraordinário fato da unidade de toda vida, e imbuído de um sentimento de fraternidade por todas as criaturas, em tal extensão que, desse momento em diante, ele não só enunciará como também praticará os princípios do Sermão da Montanha.
Mesmo que as experiências espirituais do Cristão Místico não o levem além desse estado, ainda assim, ele viverá a maior - aventura no mundo, e a magnitude desse acontecimento jamais poderá ser expressa em palavras e suas conseqüências nem de leve imagináveis. Muitos estudantes das mais elevadas filosofias acreditam na fraternidade entre os homens, pela convicção mental de que todos nos originamos da mesma fonte, assim como os raios emanam do Sol. Mas há um abismo de profundidade inimaginável entre essa fria concepção intelectual e o sagrado batismo do Cristão Místico, que sente isso em seu coração, em cada fibra do seu ser e com intensidade realmente dolorosa para ele. Isto o inflama com um desejo ardente e um amor vivente como o expressam as palavras do Cristo: "Jerusalém, Jerusalém! Quantas vezes tentei reunir todos os teus filhos, assim como uma galinha reúne seus pintinhos sob suas asas". Isto significa um amor protetor, aneloso, sofrido, que não pede nada para si, somente o privilégio de cuidar, educar e proteger.
Houvesse apenas um tênue reflexo desse amor universal entre a humanidade nestes dias tenebrosos, que paraíso a Terra seria! Em lugar de um irmão lutar contra o outro de espada na mão, em total rivalidade e competição, querendo destruí-lo moralmente e degradá-lo na prisão ou na servidão industrial sob a pressão da necessidade, não teríamos algozes nem vítimas, mas um mundo feliz vivendo em paz e harmonia, aprendendo as lições que nosso Pai Celestial deseja ensinar-nos nesta condição material. E toda a miséria do mundo pode ser atribuída ao fato que, ao acreditarmos na Bíblia, o fazemos com nosso intelecto e não com nosso coração.
Quando nos elevamos por meio das águas do Batismo - o Dilúvio Atlante - para a Idade do Arco-íris das estações alternantes, tornamo-nos vítimas de emoções variáveis que nos deixam à mercê no mar da vida. A fé indiferente, limitada pela razão e praticada pela maioria dos que professam a religião cristã, pode proporcionar resignação, equilíbrio mental e alguma coragem ante as provas da vida. Mas quando a maioria conquistar a FÉ VIVA do Cristão Místico, que supera a razão porque o CORAÇÃO SENTE, então, a Idade Alternante passará, o Arco-íris cairá com as nuvens e o ar que agora compõe a atmosfera desaparecerá. Haverá um novo céu de puro éter, onde receberemos o Batismo do Espírito e "haverá paz" (Jerusalém).
Ainda nos encontramos na Idade do Arco-íris, sujeitos às suas leis, e podemos compreender que como o Batismo do Cristão-Místico ocorre num momento de exaltação espiritual, necessariamente deve ser seguido de uma reação. A enorme magnitude da revelação oprime-o, e ele não pode entendê-la, nem conservá-la em seu veículo de carne: Então, foge dos lugares freqüentados pelos homens e refugia-se na solidão, alegoricamente representada por um deserto. Fica tão arrebatado em sua sublime descoberta que, durante o tempo de seu êxtase, pode ver o Tear da Vida, onde são tecidos os corpos de todos os viventes, do menor ao maior - o rato e o homem, o caçador e sua presa, o algoz e sua vítima. Mas não os vê como coisas separadas, porque percebe um divino halo dourado de vida "que os rodeia e a todos une". E, ainda mais, ouve em cada pessoa uma vibrante nota-chave que canta suas aspirações, entoa suas esperanças e temores, e percebe esse composto de sons e cores como uma antena mundial de Deus feita de carne. A princípio, tudo isso parece estar distante de sua compreensão. A enorme magnitude da descoberta não é percebida por ele, que não pode conceber e explicar o que sente e vê, pois não há palavras capazes de descrevê-la e nenhum conceito pode explicá-la. Mas, pelos graus que vai superando, ele começa a entender que encontrou a verdadeira Fonte da Vida, observando, ou melhor, SENTINDO cada pulsação dela, e com essa compreensão atinge o clímax de seu êxtase.
Tão arrebatado fica o Cristão Místico em sua belíssima aventura, que as necessidades físicas são completamente esquecidas enquanto dura o êxtase, e é natural que a sensação de fome seja sua primeira necessidade ao retornar ao estado normal de consciência, quando ouve também a voz da tentação: "Ordena que estas pedras se transformem em pão".
Poucas passagens das Sagradas Escrituras são mais obscuras do que o início dos versículos do Evangelho de São João: "No princípio era o Verbo . . . e nada do que foi feito, foi feito sem Ele". Um pequeno estudo da ciência do som familiariza-nos com o fato de que o som é vibração, e os diferentes sons modelam a areia ou outro material leve em figuras de variadas formas. O Cristão Místico pode ser inteiramente ignorante deste fato, do ponto de vista científico, mas aprendeu na Fonte da Vida a cantar a Canção do Ser, que embala a existência de acordo com seu desejo, como se fosse um maestro. Há uma nota-chave básica para a indigesta pedra mineral, mas uma modificação poderá transformá-la em ouro pelo qual se comprará os bens necessários à subsistência. Há outra nota-chave peculiar ao reino vegetal, que o transformará em alimento, um fato conhecido dos ocultistas avançados que praticam legitimamente encantamentos para fins espirituais, porém nunca em proveito próprio ou interesse material.
Mas o Cristão Místico, que acabou de emergir do seu Batismo na Fonte da Vida, contrai-se de horror à simples sugestão de usar seu novo poder para um fim egoísta. Foi a verdadeira qualidade altruística da alma que o conduziu às águas da consagração na Fonte da Vida, e será capaz de sacrificar tudo, até a própria vida, do que usar esse novo poder para livrar-se de uma dor profunda. Será que ele não vê também a tribulação do mundo? Que não sente isso em seu amoroso coração, e com tal intensidade que perde a fome e até a esquece? Ele pode, deseja e usa esse maravilhoso poder para saciar a fome de milhares que se reuniram para ouvi-lo, mas nunca para propósitos egoístas, pois se assim proceder poderá perturbar o equilíbrio do mundo.
Contudo, o Cristão Místico não usa esse raciocínio. Conforme já declaramos, ele não age pela razão, mas tem um guia mais seguro, uma voz interior que sempre lhe fala nos momentos em que deve tomar uma decisão: "Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede de Deus" - um outro mistério. O que tem acesso à Fonte da Vida não tem necessidade de partilhar do pão terreno. Quanto mais centramos nossos pensamentos em Deus, menos nos deleitamos com os assim chamados prazeres da mesa. Alimentando nosso corpo com alimentos leves, adquirimos uma iluminação espiritual impossível àqueles que se gratificam com uma alimentação pesada que nutre a natureza inferior. Alguns santos usaram o jejum e flagelação para obter o crescimento da alma, mas é um método incorreto por razões explicadas no artigo "O jejum para o crescimento da alma", publicado em dezembro de 1915, em um número da revista "Rays from the Rose Cross ". Os Irmãos Maiores da humanidade que entendem a Lei e vivem de acordo com ela, usam o alimento somente a intervalos de anos. A palavra de Deus é para eles "o pão da vida". Assim também sucede com o Cristão Místico, e a tentação, ao invés de provocar sua queda, eleva-o a maiores alturas.
Capítulo IV
A TRANSFIGURAÇÃO
RECORDAMOS que pelo processo místico do verdadeiro Batismo espiritual, o aspirante torna-se inteiramente plenificado com o Espírito Universal. É um fato real que, pelo sentimento e experiência, ele se torna um com toda essa vida, com tudo que se move e tem seu ser, um com a pulsátil Vida Divina que se eleva em cadência rítmica, igualmente através do menor e do maior. Tendo captado a nota-chave da canção celestial, encontra-se investido de um poder de tremenda magnitude que poderá usar tanto para o bem como para o mal. Precisamos entender e relembrar que a pólvora e a dinamite usadas pelos fazendeiros para extrair os tocos das árvores que, de outra forma, exigiriam grande trabalho manual, também são usadas para propósitos destrutivos na Grande Guerra da Europa. O poder espiritual também pode ser usado para o bem ou para-o mal, dependendo do motivo e caráter de quem o usa. Entretanto, aquele que passou pelo ritual do Batismo com êxito e adquiriu poder espiritual é em seguida tentado, para que possa decidir definitivamente se optará por seguir o caminho do bem ou o do mal. Ao atingir este ponto, ele poderá ser tanto um futuro "Parsifal", um "Cristo'", um "Herodes" ou um "Klingsor" que lutou contra os Cavaleiros do Santo Graal com todos os poderes e recursos dos Irmãos das Trevas.
Há uma tendência na moderna ciência materialista de repudiar como fábula -- somente digna da atenção de criaturas supersticiosas, tolas e mulheres idosas -uma idéia comumente aceita na Idade Média de que comunidades espirituais, semelhantes as dos Cavaleiros do Graal e também seres como os "Irmãos das Trevas", existiram em certa época. Sociedades ocultas na última metade do século têm explicado a milhares de pessoas que os Irmãos da Luz se mantêm ainda em evidência, e podem ser encontrados por aqueles que os procurarem de modo apropriado. Infelizmente, nos dias atuais, a tendência entre esse tipo de pessoas é de aceitar, na sua busca desesperada, qualquer um que se intitule um Mestre ou um Adepto. Entretanto, mesmo entre essas pessoas, poucas consideram seriamente a existência dos "Irmãos das Trevas" e o enorme mal que eles estão produzindo no mundo, e assim são induzidos, pela tendência generalizada da humanidade, a gratificar a sensualidade. As forças do bem, simbolizadas pelos servidores do Santo Graal, vivem e crescem pelo serviço altruísta que aumenta a luminosidade do reluzente Cálice do Graal. Por outro lado, o Poder das Trevas, conhecido como o Graal Negro, é representado na Bíblia pela corte de Herodes, e é alimentado pelo orgulho, sensualidade, voluptuosidade e paixão, estando encorporado na figura de Salomé, que se glorifica pelo assassinato de João Batista e de muitos inocentes. Vimos na lenda do Graal, a obra de Wagner personificada por Parsifal, que quando os Cavaleiros recusavam a inspiração que lhes vinha do Cálice do Graal, que os fortalecia e os impulsionava para grandes feitos e serviços de amor, seu ânimo enfraquecia e eles ficavam inertes. De modo semelhante acontece com os Irmãos do Graal Negro. A menos que sejam robustecidos com atos sórdidos e perversos, morrerão de inanição. Por isso, eles estão sempre ativos no mundo, cometendo iniqüidades e incitando os outros para o mal.
Não fossem os Irmãos Maiores que neutralizam em grande parte essas atividades maléficas à meia-noite, quando se convertem a si mesmos em magnetos para atrair todo mal e pensamentos impuros no Mundo Ocidental, e depois, por meio de uma alquimia de amor' sublime, transmutam esse mal em bem, já teria ocorrido um .cataclismo maior do que o da recente Guerra Mundial. Devido a essa atuação, o Gênio do Mal tem sido afastado, até certo ponto. Se a humanidade não estivesse tão inclinada para o mal, o triunfo dessa alquimia seria maior. Entretanto, espera-se que o despertar espiritual, resultante dos males da guerra, modifique esse estado de coisas, fazendo com que as forças construtoras da evolução recebam um grande impulso benéfico.
Há uma força maravilhosa que converge sobre o Cristão Místico no momento de seu Batismo, em conseqüência do descenso e concentração em si do Espírito Universal. E quando, no período de tentação, recusar profaná-lo em proveito próprio ou para adquirir poder, irá necessariamente utilizá-lo em outro sentido, pois sentirá uma agitação interior irresistível que não permitirá que permaneça inativo, numa vida apenas de oração e meditação. O poder de Deus está sobre ele para que pregue as boas novas à humanidade, assim como para ajudar e curar. Sabemos que uma lareira com material ardente não pode impedir que o calor se alastre pelo ambiente. Da mesma forma, o Cristão Místico não tem dúvidas sobre a quem amar ou onde encontrar suas oportunidades de servir. Assim como a lareira aquecida irradia calor a todos que estão próximos, também o Cristão Místico sente o amor de Deus queimando em seu coração, e continuamente o irradia àqueles com quem se põe em contato. Assim como o calor irradiado de um fogão atrai os que sofrem com o frio intenso, também os calorosos raios de amor emanados do Cristão Místico são como magnetos para atrair todos os corações que estejam congelados pela crueldade do mundo, ou seja, pela desumanidade do homem para com o homem.
Se a lareira estivesse vazia mas dotada da faculdade de discursar, poderia pregar o evangelho do calor àqueles que fisicamente sentem frio, porém, a oratória mais admirável jamais conseguiria aquecê-los. Mas, quando está suprida de lenha e irradiando calor, o sermão torna-se desnecessário. As pessoas se aproximarão e se sentirão satisfeitas e aquecidas. De modo semelhante, um sermão sobre fraternidade por alguém que não tenha sido banhado na "Fonte da Vida", soará falso. O verdadeiro Místico não tem necessidade de pregar. Seus atos, e até mesmo sua presença silenciosa, são mais poderosos do que o mais profundo discurso preparado pelos sábios doutores em filosofia.
Há uma história sobre São Francisco de Assis que serve para ilustrar o que dissemos e devemos recordá-la sempre, pois é de extrema importância. Um dia, São Francisco dirigiu-se a um jovem no convento em que residiam e disse: "Irmão, vamos até o povoado para pregar". O jovem, naturalmente, ficou muito feliz e honrado em acompanhar um homem tão santo como São Francisco. Ambos saíram em direção à vila e foram conversando sobre as coisas espirituais e a vida que conduz a Deus. Absorvidos pela conversa, passaram pelo povoado, caminharam pelas ruas, às vezes paravam para dirigir palavras delicadas e bondosas aos que encontravam. Após percorrer a maior parte das ruas, São Francisco resolveu voltar para a estrada que os conduziria ao mosteiro, quando, de repente, o jovem o lembrou da intenção de vir pregar no povoado e perguntou-lhe se havia esquecido disso. São Francisco respondeu: "Meu filho, você não percebeu que enquanto percorríamos o povoado, estávamos pregando às pessoas que nos observavam? Em primeiro lugar, nossas vestes simples revelaram que estamos devotados ao serviço de Deus, e os pensamentos daqueles que nos viram dirigiram-se logo para o céu. Percebemos que todos os moradores nos observavam, viram a nossa conduta e verificaram se agimos de acordo com o nosso ideal religioso. Eles nos ouviram e observaram se conversávamos sobre coisas espirituais ou assuntos profanos. Observaram também nossos gestos e anotaram as palavras de simpatia irradiadas diretamente de nossos corações e que repercutiram profundamente no deles. Estivemos pregando um sermão mais poderoso do que se tivéssemos ido à praça do mercado reunindo-os ao nosso redor e saturado seus ouvidos com uma exortação sobre a Santidade".
São Francisco era um Cristão Místico no mais profundo sentido da palavra, e tendo sido instruído internamente pelo Espírito de Deus, tal como Jacob Boehme e outros santos homens, conhecia bem os mistérios da vida. De certo modo, eles são mais sábios do que os mais sábios das escolas intelectuais, mas não necessitam expor ou utilizar-se de grandes mistérios para cumprir sua missão e servir de guia a outros que buscam Deus. A grande simplicidade de suas palavras e de seus atos contêm em si o poder da convicção. Naturalmente, nem todos alcançam o mesmo desenvolvimento. Nem todos possuem os mesmos poderes, do mesmo modo que as lareiras tendo tamanhos distintos produzem calor em intensidades diferentes. Aqueles que seguem o caminho do Cristão Místico, do menor ao maior, experimentam os poderes conferidos pelo Batismo, de acordo com sua capacidade. Eles foram tentados a usar o poder em objetivos maléficos para proveitos pessoais, mas tendo vencido o desejo pelas coisas do mundo, retornaram ao caminho do ministério e do serviço, a exemplo de Cristo. Suas vidas são marcadas não tanto pelo que dizem, mas pelo que fazem. O verdadeiro Cristão Místico é facilmente distinguido. Ele jamais ocupa os seis dias da semana para preparar uma grande alocução aos seus ouvintes no domingo, mas consome todos os momentos de seu dia no humilde esforço de cumprir a vontade do Mestre, pouca importância dando aos elogios externos. Deste modo, inconscientemente, trabalha sempre, aproximando-se cada vez mais do grandioso clímax que, na história do mais nobre de todos que percorreu esse caminho, é conhecido como: "A Transfiguração".
A Transfiguração é um processo alquímico pelo qual o corpo físico, formado pela química do processo fisiológico, converte-se na pedra viva, tal como mencionado na Bíblia. Os alquimistas medievais, que buscavam a Pedra Filosofal, não estavam realmente preocupados na transformação dos metais em ouro, mas perseguiam essa meta admirável, como narramos acima.
A umidade concentrada nas nuvens cai sobre a terra em forma de chuva quando suficientemente condensada, e novamente é evaporada pelo calor do Sol formando novas nuvens. Esta é a fórmula cósmica original. O espírito também se condensa na matéria e se torna mineral. Mesmo cristalizado numa estrutura tão dura quanto a pedra, a vida ainda permanece e, pela alquimia da natureza atuando por meio de outra corrente de vida, os constituintes do denso mineral do solo são transformados numa estrutura mais flexível: o vegetal, que serve de alimento ao animal e ao homem. Essas substâncias transformam-se em carne sensível pela alquimia da assimilação. Quando notamos as modificações na estrutura do corpo humano, evidenciadas por comparação com os "bushmen" (aborígenes da Austrália), os chineses, hindus, latinos, celtas e anglo-saxões, fica plenamente confirmado que o corpo denso do homem atravessa atualmente um processo de refinamento com a erradicação das substâncias grosseiras e inferiores. Com o tempo, pela evolução, este processo de espiritualização fará com que nosso corpo denso se torne transparente e radiante pela Luz que brilhará internamente, luminosa como o rosto de Moisés, como o corpo de Buda e o de Cristo na Transfiguração.
No presente, a luz do Espírito que em nós habita encontra-se efetivamente obscurecida pelo nosso corpo denso, mas podemos ter esperanças advindas da própria ciência química. Não existe nada no planeta tão raro e precioso quanto o rádium, o extrato luminoso do denso mineral negro chamado pechblenda (uranita); e nada há mais precioso e raro como o extrato do corpo humano, o Cristo radiante. Presentemente estamos trabalhando para desenvolver o Cristo Interno, e quando Ele crescer em sua total estatura, brilhará através do corpo transparente como a Luz do Mundo.
É fato anatômico, comumente conhecido, que a coluna vertebral se divide em três partes, através das quais os nervos motores, sensoriais e simpáticos são controlados. Astrologicamente são regidos pela Lua, Marte e Mercúrio, Hierarquias Divinas que desempenham papel importante na evolução humana através dos sistemas nervosos citados. Entre os antigos alquimistas, eles eram designados por três elementos químicos: sal, enxofre e mercúrio. Entre eles e acima deles, colocava-se o Fogo Espiritual de Netuno, que ascende através da coluna em forma serpentina para os ventrículos do cérebro. Na grande maioria das pessoas, o Espírito do Fogo é ainda excessivamente fraco. No entanto, um despertar espiritual ocorre naqueles que passam por uma conversão especial, isto é, pelo Batismo do Cristão Místico. Então, a descida do Espírito, que é um fato real, aumenta o Fogo Espiritual Espinhal numa extensão inacreditável, e inicia-se um processo de regeneração em que as substâncias grosseiras do tríplice corpo do homem são gradualmente eliminadas, tornando os veículos mais permeáveis e prontamente sensíveis aos impulsos espirituais. Quanto mais esse processo' se desenvolve, mais eficientes servidores eles se tornam na vinha do Senhor.
O despertar espiritual que inicia este processo de regeneração do Cristão Místico, que se purifica pela oração e pelo serviço, chega, naturalmente, também àqueles que buscam Deus pelo caminho do conhecimento e do serviço desinteressado, mas atua em sentido diferente, o que será notado pelo investigados espiritual. No Cristão Místico, o regenerador Fogo Espiritual é concentrado principalmente sobre o segmento lunar da coluna vertebral, que governa os nervos simpáticos sob a regência de Jeová. Por esse motivo, seu crescimento espiritual é efetuado pela fé, tão simples, infantil e indiscutível como nos dias da primitiva Atlântida, quando os homens se encontravam desprovidos da mente. Assim, o aspirante atrai para si a Grande Luz Branca da Divindade refletida através de Jeová, o Espírito Santo, e adquire toda a sabedoria do mundo, sem necessidade de trabalhar através de sua intelectualidade. Gradualmente, seu corpo é transmutado na branca Pedra Filosofal, a alma diamante.
Por outro lado, naqueles cujas mentes são fortes e insistem em conhecer a razão de cada máxima ou dogma, o Fogo Espiritual da regeneração atua nos segmentos do vermelho Marte e do incolor Mercúrio, buscando infundir razão ao desejo para purificar a influência passional do primeiro, e assim tornar-se casta como a rosa, transmutando o corpo na alma-rubi, a vermelha Pedra Filosofal, provada e purificada pelo Fogo, uma criativa e florescente individualidade.
Todos os que estão buscando o Caminho, seja pelo ocultismo ou pelo misticismo, tecem o "Dourado Manto Nupcial" trabalhado tanto interna como externamente. Em alguns, o ouro é extremamente pálido e em outros profundamente avermelhado. Mas, futuramente, quando o processo da Transfiguração tiver sido completado ou próximo a isso, os extremos misturar-se-ão e os corpos transfigurados terão uma cor equilibrada, pois o ocultista deve aprender as lições com profunda devoção, o mesmo fazendo o Cristão Místico para adquirir conhecimento pelo próprio esforço, sem necessidade de atrai-lo da fonte universal de toda sabedoria.
Estas considerações dão-nos um profundo conhecimento da Transfiguração apresentada nos Evangelhos. Lembremo-nos que os veículos de Jesus foram transfigurados, temporariamente, pelo Espírito de Cristo que habitava neles. Mas, mesmo considerando a enorme potencialidade do Espírito de Cristo em efetuar a Transfiguração, é evidente que Jesus devia ser um sublime caráter, sem mácula. A Transfiguração como é vista na Memória da Natureza revela o corpo de Jesus de uma brancura deslumbrante, evidenciando sua comunhão com o Pai, o Espírito Universal. Há uma grande diversidade nos atuais desenvolvimentos espirituais, porém, no reino de Cristo, essas diferenças desaparecerão gradualmente, e uma cor uniforme, indicando tanto a devoção como o conhecimento, será alcançada por todos. Essa cor corresponderá ao cor-de-rosa, vista pelos ocultistas como o Sol Espiritual, o veículo do Pai. Quando isso acontecer, a Transfiguração da humanidade será completa. Então, seremos um com nosso Pai e Seu Reino terá chegado.
Capítulo V - A ÚLTIMA CEIA E O LAVA-PÉS