Parte II
A INICIAÇÃO MÍSTICA CRISTÃ
Capítulo I
A ANUNCIAÇÃO E A IMACULADA CONCEPÇÃO
EM certos lugares do mundo ocidental, fala-se muito a respeito da Iniciação. Na mente de muitas pessoas, isto parece associar-se ao ocultismo ensinado nas religiões do distante oriente, algo peculiar aos devotos do Budismo, Hinduísmo e sistemas semelhantes de fé, e daí pensar-se que nada tenha a ver com a religião do Mundo Ocidental, particularmente com a religião Cristã.
Demonstramos nos capítulos anteriores, nos "Símbolos da Iniciação Antiga e Moderna", que essa idéia é totalmente gratuita e que o antigo Tabernáculo no Deserto apresenta no seu simbolismo, a marcha progressiva da humanidade desde a sua ignorância infantil até ao conhecimento sobre-humano. Como os Vedas traziam luz aos devotos que prestassem culto com fé e fervor às margens do Ganges no ensolarado Sul, também os Eddas foram a estrela-guia para os filhos da agreste região do Norte, os quais procuraram a Luz da vida na antiga Islândia, onde os vigorosos Vikings ancoravam seus barcos nos mares gelados. "Arjuna", que trava uma nobre batalha no "Mahabharata" ou "Grande Guerra" constantemente efetuada entre o Eu Inferior e o Eu Superior, não difere em nada do herói do mito da alma nórdica, "Siegfried", que significa "Aquele que através da vitória alcança a paz".
Ambos os heróis representam o candidato em busca da Iniciação. Embora suas experiências nessa grande aventura tenham traços próprios devido aos diferentes temperamentos dos povos do norte e do sul, previstos pelas respectivas escolas às quais as pessoas são enviadas para obterem crescimento anímico, as características principais são idênticas, e o objetivo final, que é a iluminação espiritual, é o mesmo. As almas aspirantes caminharam em busca da Luz através dos templos Persas brilhantemente iluminados, onde o deus-sol, em seu deslumbrante carro de duas rodas, era o símbolo da Luz. Também caminharam sob a mística magnificência dos raios iridescentes difundidos largamente pela aurora boreal no gelado Norte. Há amplas evidências demonstrando que a Luz verdadeira do mais profundo conhecimento esotérico sempre esteve presente em todas as eras, mesmo na mais escura de todas, a chamada Idade das Trevas, a Idade Média.
Rafael empregou seu maravilhoso domínio dos pincéis em seus dois grandes quadros, "A Madona Sistina" e "Casamento da Virgem", os quais aconselhamos ao leitor interessado examinar cuidadosamente. Cópias desses quadros são muito procuradas em quase todas as galerias de arte. No original há uma tonalidade peculiar num halo dourado atrás da Virgem - e da Criança, e mesmo que seja excessivamente tênue a uma pessoa dotada de visão espiritual, ainda assim está bem próxima da cor do primeiro céu, tanto quanto é possível fazê-lo com os pigmentos da terra. Uma observação mais rigorosa no último plano do quadro, revelará uma multidão de seres, aos quais chamamos "Anjos", com suas cabeças e asas.
Isso é uma literal representação pictórica dos habitantes do mundo espiritual tanto quanto pode ser revelada, pois durante a permanência nos mundos purgatoriais, que ficam nas regiões inferiores do Mundo do Desejo, as partes inferiores do corpo são realmente desintegradas, e somente a cabeça, que contém a inteligência do homem, permanece quando ele entra no primeiro céu, um fato que intriga muitos que ali podem ver as almas. As asas, naturalmente, não existem fora da pintura, mas têm a finalidade de significar a habilidade da alma em mover-se velozmente, o que é inerente a todos os seres nos mundos invisíveis. O Papa está representado apontando para a Madona e o Cristo Menino. Um exame mais acurado revelará que a mão, com a qual ele aponta, tem seis dedos. Não há nenhuma evidência histórica de que o Papa da época tivesse tal deformidade, nem tão pouco o fato pode ter sido acidental; os seis dedos na pintura devem revelar alguma intenção da parte do pintor.
Qual era o seu propósito, aprenderemos quando examinarmos o quadro "Casamento da Virgem",. onde notamos uma anomalia semelhante. Nele, Maria e José são representados juntos com o menino Jesus, parecendo-nos que estavam às vésperas da partida para o Egito, e também vemos um Rabino unindo-os em matrimônio. O pé esquerdo de José é o elemento mais saliente na pintura, e se contarmos os dedos desse pé, veremos que são seis. Em ambas as pinturas, os seis dedos do Papa e os seis artelhos de José significam que Rafael queria indicar que os dois desenvolveram o sexto sentido, faculdade despertada pela Iniciação. Por esse sentido tão sutil, ó pé de José era guiado em sua fuga para manter em segurança o ser sagrado que foi confiado aos seus cuidados. O outro adquiriu o sexto sentido para que não fosse um cega liderando outros cegos, mas tivesse desenvolvido "o olho que vê", requisito para indicar o Caminho, a Verdade e a Vida. É um fato verdadeiro, embora desconhecido por muitos, que com uma ou duas exceções em que o poder político foi suficientemente forte para corromper o Colegiado dos Cardeais, todos aqueles que se sentaram no trono de Pedro tiveram visão espiritual em maior ou menor grau.
Nos capítulos anteriores discorremos sobre "Símbolos da Antiga e Moderna Iniciação" e sobre o Templo de Mistérios Atlante, conhecido como o Tabernáculo no Deserto, que era uma escola para o crescimento anímico. Portanto, não nos pode causar surpresa que os quatro Evangelhos narrativos da vida do Cristo também sejam fórmulas de Iniciação, que revelam um outro e posterior Caminho para a obtenção do poder da alma. Nos antigos Mistérios Egípcios, Horus foi o primeiro exemplo a quem o aspirante esforçava-se por imitar. E é significativo que no Ritual de Iniciação em voga naqueles dias - e que agora conhecemos como o "Livro dos Mortos" - o aspirante à Iniciação fosse sempre chamado Horus fulano-de-tal. Seguindo o mesmo método, atualmente podemos chamar aquele que segue o Caminho da Iniciação Cristã, de Cristo (nome do aspirante), pois os que seguem esse caminho são realmente Cristos em formação. Cada um desses seres, a seu tempo, terá de enfrentar as diferentes estações da Via Dolorosa ou o Caminho do Sofrimento que conduz ao Calvário, e experimentar no próprio corpo as dores e agonias sofridas pelo Herói dos Evangelhos. A Iniciação é um processo cósmico de iluminação e evolução. Por isso, as experiências de todos são semelhantes nos principais acontecimentos.
O sistema intelectual de uma Iniciação Mística Cristã difere radicalmente do método Rosacruz, que objetiva despertar a compaixão do candidato através do conhecimento, procurando cultivar nele as faculdades latentes da visão e audição espirituais desde o início de sua peregrinação como um aspirante a uma vida superior. É ensinado a conhecer os ocultos mistérios do ser, e perceber, intelectualmente, a unidade de cada um com todos. Por fim, pelo conhecimento, será despertado nele o sentido que o fará perceber verdadeiramente sua ligação com tudo que vive e se move, e isso o porá em perfeita e completa sintonia com o Infinito, tornando-o um verdadeiro auxiliar e trabalhador no divino reino da evolução.
A meta atingida pela Iniciação Mística Cristã é a mesma, porém o método, como se disse, é completamente diferente. Em primeiro lugar, o candidato geralmente encontra-se inconsciente do fato de que está tentando atingir algum objetivo definido, pelo menos no primeiro estágio do seu desenvolvimento. Nesta nobre Escola de Iniciação há somente um Mestre, o Cristo, que surge sempre diante da visão espiritual do candidato como o Ideal e Meta de toda sua busca. O Mundo Ocidental ficou tão dominado pela intelectualidade, que estes aspirantes somente iniciam a Caminhada quando sentem sua razão satisfeita. E, infelizmente, é só a ânsia por maior conhecimento que traz a maioria dos estudantes para a Escola Rosacruz. R uma árdua tarefa cultivar em seus corações a compaixão, que deve ser mesclada com o conhecimento para tornar-se o seu fator-guia antes que estejam prontos para entrar no Reino de Cristo. Porém, aqueles que são atraídos para o Caminho Místico Cristão, não sentem dificuldades dessa natureza. Eles têm dentro de si um amor-envolvente que os impele ao bem e lhes gera um conhecimento e compreensão que o autor acredita serem muito superiores ao obtido por qualquer outro método. A pessoa que segue o Caminho intelectual do desenvolvimento, tende a desprezar altivamente outra pessoa cujo temperamento a impele a um Caminho Místico. Tal disposição mental, não somente prejudica o desenvolvimento espiritual de quem assim procede, como também é completamente gratuita, como podem demonstrar os trabalhos de Jacob Boehme, Tomás de Kempis e muitos outros que seguiram o Caminho Místico. Quanto maior for o nosso conhecimento, tanto maior será a nossa condenação se fizermos mal uso dele. Mas o amor, que é o principio básico na vida do Cristão Místico, jamais poderá nos levar à condenação ou a conflitar com a vontade de Deus. É infinitamente melhor ser capaz de sentir emoções nobres, do que ter a habilidade intelectual para definir todas as emoções. Fazer cogitações sobre a evolução do átomo, seguramente não promoverá tanto crescimento e desenvolvimento da alma quanto a dócil e humilde ajuda ao nosso próximo.
Há nove graus definidos na Iniciação Mística Cristã, começando pelo Batismo, que é introdutório. A Anunciação e a Imaculada Concepção precedem a todos eles por razões que serão dadas posteriormente. Estando mentalmente preparados pelas considerações anteriores, encontramo-nos aptos a considerar cada passo separadamente, neste glorioso processo de desenvolvimento espiritual.
A Anunciação e a Imaculada Concepção
O Cristão Místico, enfaticamente afirmamos, não é o produto de uma única vida, mas a essência de várias existências preparatórias, durante as quais cultivou a sublime compaixão que o faz sentir e sofrer todas as dores do mundo, e invocar diante de sua visão espiritual, o Ideal Crístico como o verdadeiro bálsamo de Gileade, a única panacéia para os males do mundo. Semelhante alma é objeto constante de vigilância e cuidados especiais por parte das Hierarquias Divinas, que cuidam de seu progresso ao longo do caminho da evolução. E, quando o momento é oportuno para renascer, quando estiver preparado para trilhar o caminho que o conduzirá à meta e o tornará um Salvador de sua espécie, os anjos ainda assim o vigiam, esperando e cantando hosanas numa feliz antecipação do grande evento.
Os semelhantes sempre atraem os semelhantes, e naturalmente os pais são cuidadosamente selecionados para (e por) receber tão nobre alma dentre os "filhos e filhas do Rei". Eles devem estar nas mais pobres condições do ponto de vista do mundo. Será necessário embalar o bebê numa manjedoura, mas nenhum presente é tão valioso como o que é recebido pelos pais de tão nobre alma. Entre as qualificações necessárias para ser pais de tal Ego, é preciso que a mãe seja "uma virgem" e o pai "um construtor".
Diz-se na Bíblia que José foi um carpinteiro, mas a palavra grega "tekton" deve ser traduzida por "construtor". Na Maçonaria Mística, Deus é chamado O Grande Arquiteto. Arche em grego significa a substância primordial e um tekton é um. construtor. Assim, Deus é o Grande Mestre Construtor, o qual moldou o mundo com a matéria primordial preparando um campo evolutivo para vários graus de seres. Ele usa no Seu universo muitos tektons ou construtores de vários graus. Qualquer um que siga a Senda do desenvolvimento espiritual, esforçando-se por trabalhar construtivamente com as leis da natureza -como um servo da humanidade - é um tekton ou construtor, no sentido que se acha qualificado para ajudar e dar nascimento a uma grande alma. E por isso que se diz que Jesus era um carpinteiro e filho de um carpinteiro, e entendemos que ambos eram tektons ou construtores numa linhagem cósmica.
A Imaculada Concepção, como outros sublimes mistérios, tem sido lançada na vala da materialidade e, sendo de tal sublime espiritualidade, talvez sofra mais por esse rude tratamento do que qualquer outro ensinamento espiritual. Talvez sofra ainda mais pelas explicações maldosas dós ignorantes defensores, do que pela jocosidade e zombaria dos cínicos. A doutrina da Imaculada Concepção, conforme explicada popularmente, diz que há dois mil anos, Deus, de um modo milagroso, fecundou uma virgem de nome Maria. Em seguida, ela trouxe ao nascimento o menino Jesus, um ser que, conseqüentemente, era Filho de Deus, diferente de qualquer outro homem. Na mente popular existe a crença de que este é o único caso na história do mundo.
Essa última falácia serviu para distorcer a beleza espiritual da verdade concernente à Imaculada Concepção. De modo algum é o único caso. Toda grande alma que veio ao mundo para viver uma vida de sublime santidade, como a que se exige para a Iniciação Mística Cristã, renasceu através de pais de imaculada virgindade, que não estavam dominados pela paixão durante o ato gerador. "O homem não colhe uvas dos abrolhos". É uma verdade axiomática que o semelhante atrai o semelhante, e antes que qualquer um se torne um Salvador, deverá ser puro e sem pecado. Sendo puro, não poderá nascer de um vilão; terá de nascer de pais virgens.
No entanto, a virgindade a qual nos referimos não diz respeito a uma mera condição física. Não há virtude inerente à virgindade física, pois todos a possuem no início da vida, não importa quão vil possa ser a inclinação de sua natureza. A virgindade da mãe do Salvador é uma qualidade de alma que permanece sem mácula apesar do ato físico da fecundação. Quando as pessoas efetuam o primeiro ato sexual sem o desejo de ensejar vida a um novo ser, meramente para a gratificação de sua luxúria, perdem a única virgindade (física) que possuíam. Mas, quando os pais, unidos num espírito de prece, oferecem seus corpos no Altar dos Sacrifícios com o propósito de favorecer o nascimento de uma alma com um corpo físico necessário à época atual, -e assim obter um maior desenvolvimento espiritual, sua pureza de sentimentos preserva a virgindade e atrai uma nobre alma para o seu lar. Seja a criança concebida em pecado ou -de forma imaculada, de acordo com a sua própria e inerente qualidade de alma, infalivelmente será atraída para pais de natureza semelhante à sua. Ser o filho de uma virgem preconiza que essa alma teve uma existência de elevada espiritualidade nos renascimentos anteriores.
O "nascimento místico" de um "construtor" é um acontecimento cósmico de grande importância. E não surpreende que seja representado nos céus, de ano para ano, indicando, num simbolismo gráfico no grande mundo ou macrocosmo, o que futuramente acontecerá com o homem, o pequeno mundo ou microcosmo. Todos estamos destinados às mesmas experiências pelas quais Jesus passou, inclusive a Imaculada Concepção, que é um pré-requisito na vida dos santos e salvadores de diversos graus. Entendendo esse maravilhoso simbolismo cósmico, mais facilmente perceberemos sua aplicação no ser humano individual.
O Sol é "a luz do mundo" num sentido material. Quando no inverno ele atinge a 'declinação no extremo sul, - no solstício de 23 de dezembro, as pessoas do hemisfério norte, onde nasceram todas as religiões atuais, são envolvidas pela mais profunda escuridão e privadas de toda força vital sustentadora emanada do Sol, - que permanece parcialmente morto no que se refere à sua influência sobre os homens desse hemisfério. Portanto, é necessário que uma nova luz brilhe na escuridão, que um Sol de Bondade nasça para salvar a humanidade do frio e da fome resultantes da ausência do Sol no solstício de inverno.
Na noite entre 24 e 25 de dezembro, o Sol, tendo começado a elevar-se vagarosamente em direção ao Equador da Terra, o signo zodiacal de Virgo, a Imaculada Virgem celestial, está no horizonte leste em toda latitude norte (pouco antes da meia-noite). Na ciência da astrologia, considera-se que o signo e o grau da hora do nascimento determinam a forma do corpo do nascituro. Portanto, o Sol da Bondade diz-se que nasceu da Sublime Virgem Celestial, que permanece tão pura quanto antes do nascimento do seu Filho. Por analogia, o Filho de Deus, que veio para a salvação da humanidade, também deveria nascer de uma imaculada virgem espiritual.
De tudo que foi dito, é evidente que um longo período de preparação precede a entrada de um Cristãs Místico na atual esfera da vida humana, embora ele, em sua consciência física, esteja completamente alheio à grande aventura que o espera. Há muita probabilidade de sua infância e juventude serem passadas na obscuridade enquanto vive uma profunda preparação interior e está inconscientemente sendo preparado para o Batismo, que é o primeiro degrau deste método de desenvolvimento.
Capítulo II
O RITUAL MÍSTICO DO BATISMO
É digno de nota que quase todas as religiões prescreveram uma ablução prévia para celebrar um ato religioso, e o culto realizado no Antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto, não era uma exceção, conforme vimos nos artigos prévios de "Símbolos da Antiga e Moderna Iniciação". Após ter obtido a justificação pelo sacrifício no Altar de Bronze, o candidato devia lavar-se no Lavabo da Consagração, o Mar Fundido, antes de ter permissão para receber instruções sobre os deveres de seu ministério no próprio santuário. E, de acordo com estas normas, é que encontramos o Herói dos Evangelhos dirigindo-se ao Rio Jordão, onde Ele passou pelo ritual místico do Batismo. Quando Ele emergiu das águas, diz-se que o Espírito Santo desceu sobre Ele. Por isso, aqueles que seguem o Caminho Místico da Iniciação Cristã, obviamente devem ser batizados antes de poderem receber o Espírito, que será o seu verdadeiro guia em todas as provas que deverão enfrentar.
Mas, o que constitui o Batismo, é uma questão que tem suscitado discussões de intensidade inacreditáveis. Uns entendem que basta uma aspersão com água. Outros insistem que o neófito deve ser imergido de corpo inteiro na água. Alguns ponderam que é suficiente levar uma criança à igreja, aspergir-lhe água, apesar do seu protesto e pronto! Ela se torna uma cristã, uma herdeira do céu. Caso ela morra antes desse ritual, inevitavelmente terá que ir para o inferno. Outros defendem uma posição mais lógica, afirmando que é importante o desejo do próprio indivíduo para sua admissão na Igreja, sendo esse o fator principal e necessário para a realização do ato. Por isso, esperam a idade adulta antes de realizar a cerimônia, que requer a imersão do corpo inteiro na água. Mas, quer o ritual seja realizado na infância ou na idade adulta, parece estranho que uma imersão momentânea ou apenas a aspersão possam salvar uma alma. Quando examinamos a vida daqueles que foram batizados, mesmo na idade adulta com seu pleno consentimento e desejo, encontramos pouco ou nenhum aperfeiçoamento na maioria deles. Assim, parece evidente não ser este o tipo de ritual apropriado, porque o Espírito não desceu sobre eles. Conseqüentemente, devemos buscar uma outra explicação para o que constitui o verdadeiro ritual místico do Batismo.
Conta-se uma história sobre um rei otomano que declarou guerra a uma nação vizinha, travou inúmeras batalhas contra ela, com sucesso em muitas, mas finalmente foi vencido e levado cativo ao palácio do vencedor, onde foi obrigado a trabalhar nos serviços mais humildes como escravo. Após muitos anos, a fortuna favoreceu-o e ele fugiu para um país distante onde, através de um trabalho árduo, adquiriu uma propriedade pequena, casou-se e teve muitos filhos que cresceram à sua volta. Finalmente encontrou-se no leito de morte em idade bem avançada e, ao exalar seu último suspiro, ergueu-se do travesseiro e olhou ao redor, mas não havia lá nenhum de seus filhos ou filhas. Não se encontrava no lar onde viveu muitos anos, mas no próprio palácio que deixou na juventude, e estava tão jovem como naquele tempo. Viu-se sentado numa cadeira com uma bacia de água perto do seu rosto e um criado ocupava-se em lavar-lhe o cabelo e a barba. Logo que imergiu seu rosto na água, começou a sonhar com a guerra e com toda a sua vida. Isso decorreu nos poucos segundos em que se lavou. Há milhares de outros fatos demonstrando que fora do mundo físico não existe tempo, e que ocorrências milenares são facilmente revistas em poucos minutos.
Sabe-se também que quando uma pessoa está sob a água e prestes a afogar-se, toda sua existência passa diante dos seus olhos com clareza, e mesmo os mínimos detalhes já esquecidos são rememorados inteiramente. Assim, o acervo de todos os acontecimentos volta à consciência sob certas condições, isto é, quando os sentidos estão relaxados, quando estamos sonolentos ou quando nos encontramos à beira da morte.
Para tornar mais claro o que foi dito acima, devemos nos lembrar de que o homem é um ser composto, tendo outros veículos mais sutis que interpenetram o corpo denso, e que normalmente é considerado como o que representa o homem integral. Durante a morte e no sono, o corpo denso torna-se inconsciente devido à completa separação entre ele e os veículos mais sutis. Porém, esta separação é somente parcial durante o sono com sonhos e no momento prévio ao afogamento. Esta condição capacita o espírito a imprimir no cérebro, com maior ou menor intensidade e de acordo com as circunstâncias, os incidentes mais importantes relacionados com a sua vida. A luz destes acontecimentos, podemos entender o que realmente constitui o ritual do Batismo.
De acordo com a Teoria nebular, o que agora é a Terra, foi no passado uma névoa ígnea que gradualmente se esfriou em contato com o frio do espaço. Esse contato do calor com o frio gerou umidade, que se evaporava e se erguia do centro aquecido até condensar-se pelo frio, caindo novamente como umidade sobre o planeta ardente. A superfície da Terra ficou sujeita à alternação da evaporação e liquefação da água por muitos períodos, e finalmente cristalizou-se em uma concha que cobriu inteiramente o centro ígneo. Essa mistura suave que formou a concha, gerou uma neblina que envolveu o planeta como uma atmosfera, e isto foi a origem de tudo quanto existe sobre a Terra: homem, animal e planta.
A narração bíblica descreve essas condições no segundo capítulo do Gênesis, quando lemos que no tempo do primeiro homem, uma névoa saía da Terra, "pois ainda não chovia". Essa condição perdurou até o Dilúvio, quando a névoa baixou e deixou a atmosfera de tal forma clara que o arco-íris apareceu pela primeira vez. A escuridão foi dissipada e o ciclo das alternâncias, dia-noite, verão-inverno, iniciou-se.
Ao estudarmos a cosmogonia e os relatos pictóricos da evolução encontrados nos Eddas do Norte, entesourados pelos sábios escandinavos antes da Era Cristã, podemos aprender mais sobre esse período da história da Terra e da importância que tem sobre o tema que discorremos. Do mesmo modo que ensinamos nossos filhos por meio de contos e desenhos as verdades que eles não conseguem captar intelectualmente, a humanidade nascente era ensinada pelos divinos Guias da humanidade através de alegorias e ilustrações que a preparava para ensinamentos mais elevados e nobres no futuro. O grande poema épico, conhecido como "O anel dos Niebelungos", oferece-nos a história do que nós buscamos, assim como a origem cósmica do ritual do Batismo e por que há necessidade do primeiro passo para o desdobramento espiritual do Cristão Místico.
A cosmogonia dos Eddas é semelhante à da Bíblia em alguns aspectos, e em outros fornece indicações que comprovam a teoria de Laplace. Transcrevemos a versão poética de Oehlenschlaeger:
"Na primitiva alvorada dos Seres
Somente havia um abismo escuro e tenebroso;
Nem terra, nem céu se descortinavam,
E a fria névoa e o gelo pernicioso
Nas montanhas se agrupavam
Vindos do norte, das cavernas obscuras de Niflheim.
Ao sul, do radiante pólo de Muspel, já se podia ver
O fogo irradiando seu poder.
"Após se passarem muitas eras,
A névoa no caos encontrou-se
Com um sopro suave, o vento de Niflheim,
O frio com o calor mesclou-se
E gotas nascentes surgiram
Do ar original.
Assim, da região de Muspel aquecida,
O Grande Aurgelmer veio à vida".
Portanto, pela ação do calor e do frio, foi primeiramente formado Aurgelmer, também chamado o Gigante Ymer. Essa foi a semente germinadora por onde vieram as Hierarquias Espirituais, os espíritos da terra, do ar, da água e finalmente o homem. Ao mesmo tempo, o Todo-Poderoso Pai criou a Vaca Audumla, de cujas quatro tetas saíram quatro jatos de leite que nutriam todos os seres. Esses são os quatro éteres: um que sustenta agora o mineral, dois que alimentam a planta, três ao animal e todos os quatro o reino humano. Na Bíblia, eles são os quatro rios que saíam do Paraíso.
De acordo com a ciência, uma crosta deve ter sido formada pela contínua ebulição da água, e desta crosta ascendia uma neblina, como consta do segundo capítulo do Gênesis. Conforme os graus de calor ou frio, a água esfriava e condensava-se ocultando a luz solar, de modo que a humanidade nascente não podia ver o próprio corpo, mesmo possuindo a visão física. Porém, sob tais condições, os homens não necessitavam de olhos, tal como a toupeira que escava a terra. No entanto, não eram cegos e sabemos que "viram Deus", pois, como as "coisas espirituais (e seres) são percebidos espiritualmente", eles deviam ser dotados de visão espiritual. Nos mundos espirituais há um tipo de realidade diferente daquela que temos aqui, a qual é a base dos mitos.
Nessas condições não poderia haver choque de interesses, e a humanidade considerava-se filha de um grande Pai enquanto vivia sob a atmosfera nebulosa da antiga Atlântida. O egoísmo surgiu no mundo somente quando a névoa se condensou e o povo teve que deixar a atmosfera aquosa de Atlântida. Quando seus olhos se abriram para que pudessem perceber o mundo físico e as coisas visíveis, e quando cada um se viu separado dos outros e tomou consciência do "eu e meu, tu e teu", um sentimento de egoísmo substituiu a fraternidade em que viviam na aquosa Atlântida. Desde então e até hoje, o egoísmo tem sido considerado uma atitude legítima e, mesmo em nossa civilização tão avançada, o altruísmo parece um sonho utópico longe do alcance das pessoas sensatas.
Se a humanidade tivesse permissão de caminhar sob o impulso do egoísmo, livre e sem impedimentos, é difícil prever onde chegaria. Porém, sob a imutável Lei de Conseqüência, toda causa tem que gerar um efeito correspondente. O princípio do sofrimento nasceu do pecado, tendo o benevolente objetivo de levar-nos de volta à virtude. Requer muito, sofrimento, e muitas vidas devem suceder-se para tingirmos essa meta. Mas, quando finalmente nos tornarmos cientes do motivo do sofrimento e compreensivos em relação às provas; quando tivermos cultivado essa pronta e profunda compaixão que nos faz solidários com todas as angústias do mundo; quando o Cristo tiver nascido dentro de nós, então, virá ao Cristão Místico uma ardente inspiração para buscar e salvar aqueles que se encontram perdidos, mostrando-lhes o caminho para a eterna luz e paz.
Entretanto, para indicar-lhes o caminho, precisamos primeiro conhecê-lo. Sem a verdadeira compreensão da causa dos males, não podemos guiar outros para que obtenham a paz permanente. Essa compreensão da vida, de seus males e da morte não pode ser obtida em livros ou através de ensinamentos de outra pessoa. Deverá ser uma impressão intensa que preencherá .todo o ser do aspirante e não poderá ser adquirido por outros meios. Somente o Batismo proporcionará esse estado de forma adequada, por isso deverá ser o primeiro passo na vida de um Cristão Místico.
Quando dizemos Batismo, não nos referimos necessariamente ao Batismo físico por aspersão ou imersão, onde o candidato faz certas promessas àquele que o batiza. O Batismo Místico pode ocorrer tanto no deserto como numa ilha, pois é um processo espiritual para obter-se um propósito espiritual. Pode acontecer a qualquer momento do dia ou da noite, no verão ou no inverno, no momento em que o aspirante sente intensamente a ânsia de saber as causas dos males e percebe como poderá aliviá-los. Então, o Espírito é conduzido sob as águas da Atlântida, onde ele conhece as condições primitivas do amor e bondade fraternos, onde percebe Deus como o grande Pai de Seus filhos, os quais estão envolvidos por Seu maravilhoso amor. E, pela volta consciente a este Oceano de Amor, o candidato fica de tal forma imbuído deste sentimento de irmandade, que o espírito do egoísmo é banido do seu ser para sempre. Por causa desta saturação do Espírito Universal, é que ele, mais tarde, será capaz de dizer: "Se um homem pede o teu casaco, dá-lhe também a tua capa; se ele te convida a caminhar uma milha, acompanha-o em duas". Sentindo-se um com todos, o candidato não considera a sua crucificação um sacrifício, e pode dizer: "Pai, perdoai-os". Ele se identifica com os outros que o fazem sofrer. Ele é o agressor tanto quanto a vítima. Esse é o verdadeiro Batismo Espiritual do Cristão Místico, e qualquer outro batismo que não produza. esse sentimento fraterno universal, não é digno de assim ser chamado.