Parte I
O TABERNÁCULO NO DESERTO
O Antigo Templo de Mistérios Atlante
Capitulo I
O TEMPLO DE MISTÉRIOS ATLANTE
DESDE que a humanidade - os filhos pródigos espirituais de nosso Pai Celestial - perambulou pelos desertos do mundo e se alimentou dos prazeres que destroem a alma - como a fome destrói o corpo - existe no coração do homem uma voz silenciosa que o chama de volta ao lar. Entretanto, muitas pessoas estando totalmente absorvidas por interesses materiais, não podem ouvi-Ia. O Maçom Místico que ouviu essa voz interior, sente um impulso interno para procurar a Palavra Perdida e construir a casa de Deus, um templo do espírito, onde possa encontrar-se com o Pai, face a face, e responder ao Seu chamado.
Ele não está só nessa busca, pois o nosso Pai Celestial preparou para todos um caminho com indicações que nos levarão até Ele, se seguirmos essa direção. No entanto, como esquecemos a divina Palavra e seríamos incapazes de compreender o seu significado, o Pai fala-nos na linguagem simbólica que, ao mesmo tempo, encobre e revela as verdades espirituais que devemos entender antes de voltarmos a Ele. Do mesmo modo como oferecemos aos nossos filhos livros com gravuras para revelar-lhes conceitos incompreensíveis às suas mentes infantis, assim também cada símbolo dado pôr Deus tem um profundo significado, incompreensível se não fosse exemplificado dessa maneira.
Deus é espírito e em espírito deve ser adorado. Por isso, é totalmente desnecessário tentar idealizar uma forma material d'Ele, pois nada que imaginarmos conduziria a uma idéia adequada. Mas, do mesmo modo que saudamos a bandeira de nosso país com alegria e entusiasmo porque desperta em nós os sentimentos mais ternos pelo lar e por nossos entes queridos e, em conseqüência, suscita os nossos mais nobres impulsos por ser um símbolo de tudo que mais prezamos, assim também agem os diferentes símbolos divinos dados à humanidade de tempos em tempos, aquele acervo de verdades que já estão em nossos corações e despertam nossa consciência para as idéias divinas que transcendem as palavras. Contudo, o simbolismo, que realizou um papel importante em nossa evolução passada, é ainda uma necessidade primordial em nosso desenvolvimento espiritual. Daí a conveniência de estudá-lo com nosso coração e nosso intelecto.
É óbvio que, assim como nossa atitude mental de hoje depende de como pensamos ontem, também nossa condição e circunstâncias no presente dependem de como trabalhamos ou negligenciamos no passado. Cada novo pensamento ou idéia que nos chegam, devem ser considerados sob a luz de nossas experiências anteriores, e assim compreendemos que o nosso presente e o nosso futuro são determinados por vivências passadas. De modo semelhante, o caminho para o desenvolvimento espiritual que palmilhamos em existências passadas, determina nossa atitude presente e a rota que devemos seguir a fim de atingir nossas aspirações. Por isso, não podemos obter qualquer perspectiva verdadeira de nosso futuro desenvolvimento, enquanto não nos familiarizarmos primeiramente com o passado.
É em reconhecimento desse fato que a Maçonaria moderna retrocede ao templo de Salomão. Mas, com o objetivo de obter uma perspectiva mais ampla, devemos considerar também o antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto. Devemos entender a importância pertinente àquele Tabernáculo e também a do primeiro e segundo Templos, pois havia diferenças vitais entre eles, sendo cada um dotado de significado cósmico próprio. Mas, dentro de todos eles projetava-se a sombra da Cruz, salpicada com Sangue que se converteu em Rosas.
O Tabernáculo no Deserto
Lemos na Bíblia, a história de como Noé e o remanescente de seu povo, salvos com ele no dilúvio, formaram o núcleo da humanidade da Idade do Arco-íris, na qual vivemos agora. Também se afirma que Moisés conduziu seu povo para fora do Egito, para a terra do Touro, Taurus, através das águas que tragaram seus inimigos. Levou seu povo a salvo, como um povo escolhido, para adorar o Cordeiro, Aries, em cujo signo o Sol entrava por precessão dos equinócios. Estas duas narrativas referem-se ao mesmo incidente, conhecido como a emersão da humanidade infantil do submerso Continente Atlante à presente idade dos ciclos alternantes, onde verão e inverno, dia e noite, fluxo e refluxo sucedem-se ininterruptamente. A humanidade, que acabava de ser dotada com a mente, começou a notar a perda da visão espiritual que possuía até então, e sentiu saudades do mundo espiritual e de seus guias divinos, nostalgia que permanece até os dias atuais. Os homens nunca cessaram de lastimar essa perda. No entanto, o antigo Templo de Mistérios Atlante, o Tabernáculo no Deserto, foi-lhes dado para que pudessem encontrar Deus quando se qualificassem pelo serviço e tivessem subjugado a natureza inferior pelo Eu Superior. Designado por Jeová, representava a incorporação de grandes verdades cósmicas ocultas pelo véu do simbolismo, o qual falava à natureza interna ou Eu Superior.
Em primeiro lugar, é digno de nota que este Tabernáculo, delineado por ordem divina, tenha sido dado a um povo escolhido, que deveria construi-lo graças a ofertas voluntárias doadas com prazer e devoção. Reconhecemos aqui uma lição especial, segundo a qual o modelo divino do caminho para o progresso nunca é dado àquele que não fez primeiro uma aliança com Deus, prometendo servi-Lo, oferecendo-Lhe o sangue de seu coração numa vida de serviço sem egoísmo. O termo "Maçom" deriva de phree messen, um termo egípcio que significa "Filhos da Luz". Na linguagem maçônica, Deus é conhecido como o Grande Arquiteto. Arche é uma palavra grega que significa "substância primordial". Tekton em grego significa construtor. Diz-se que José, o pai de Jesus, era um "carpinteiro", mas a palavra grega é tekton, um construtor. Diz-se também que Jesus era um "tekton", um construtor. Desse modo, cada verdadeiro Maçom Místico é um filho da luz, um construtor, esforçando-se por edificar o templo místico de acordo com o modelo divino que lhe foi dado por nosso Pai no Céu. A esse fim ele dedica todo o seu coração, alma e mente. Sua aspiração é, o(deveria ser, "tornar-se o maior no reino de Deus" e para isso ele deve ser o servo de todos.
O próximo ponto digno de nota é a localização do Templo com relação aos pontos cardeais, e observamos que foi colocado na direção de leste para oeste. Assim, vemos que o caminho da evolução espiritual é o mesmo do Sol: vai de leste para oeste. O aspirante entrava pela porta do leste e seguia até o Altar dos Sacrifícios, o Altar de Bronze; depois continuava até o Lugar Santo, na parte mais oeste do Tabernáculo, onde a Arca, o maior dos símbolos, estava colocada no Sanctum-Sanctorum. Assim como os sábios do Oriente seguiram a estrela do Cristo em direção ao oeste até Belém, assim também o centro espiritual do mundo civilizado caminha sempre para o oeste, e hoje, a onda espiritual, que começou na China nas praias ocidentais do Pacífico, chegou agora às praias orientais do mesmo oceano, onde está reunindo forças para erguer-se uma vez mais através de sua cíclica jornada pelas águas, para recomeçar, num futuro distante, uma nova jornada cíclica ao redor da Terra.
A natureza ambulante deste Tabernáculo no Deserto é, portanto, uma excelente representação simbólica da natureza migratória do homem, um eterno peregrino, passando sempre do limite do tempo à eternidade, para voltar novamente. Como um planeta revoluteia em sua jornada cíclica ao redor do sol primitivo, assim também o homem, o pequeno mundo ou microcosmo, viaja numa dança cíclica ao redor de Deus, a fonte e a meta de tudo.
O grande cuidado e atenção aos detalhes relativos à construção do Tabernáculo no Deserto, mostra que existe algo, muito além do que a visão alcança, que se intentou na sua construção. Sob a aparência material e terrena estava esquematizada uma representação de fatos celestiais e espirituais que continham instruções aos candidatos à Iniciação. Não deveria esta reflexão estimular-nos a procurar uma ligação familiar mais íntima com este antigo santuário? Certamente ele nos exorta a considerar todas as partes do seu plano com atenção e reverência, recordando, a cada passo, a origem divina de todo ele, e humildemente almejar penetrar, através das sombras dos serviços terrenos, na sublime e gloriosa realidade espiritual, à qual, de acordo com a sabedoria do espírito, se oferece para nossa solene contemplação.
Para que possamos alcançar uma correta concepção desse lugar sagrado, devemos considerar o Tabernáculo em si mesmo, seu mobiliário e seu átrio. A ilustração da página 29 pode ajudar o estudante a formar uma melhor concepção do interior dele.
O Átrio do Tabernáculo
Era um cercado que circundava o Tabernáculo. Seu comprimento era o dobro da sua largura e a entrada localizava-se a leste. Essa entrada era cercada por uma cortina de linho fino entrelaçado nas cores azul, vermelho e púrpura, cores que nos indicam a importância deste Tabernáculo no Deserto. No sublime Evangelho de João, aprendemos que: "Deus é Luz", e nenhuma outra descrição ou similaridade pode transmitir tão bela concepção ou maior iluminação para nossa mente espiritual do que essas palavras. Se considerarmos que até os mais poderosos telescópios falham ao tentar atingir os limites da luz, apesar de penetrarem no espaço milhões e milhões de quilômetros, essa afirmação dá-nos uma fraca mas compreensível idéia da infinidade de Deus.
Sabemos que essa Luz, que é Deus, se refrata nas três cores primárias que circundam o nosso planeta -azul, amarelo e vermelho. E é um fato do conhecimento de todo ocultista que o raio do Pai é azul; o do Filho é amarelo e o do Espírito Santo é vermelho. Somente o raio mais forte e mais espiritual tem possibilidade de penetrar o centro da consciência da onda de vida do reino mineral e, por isso, vemos o raio azul do Pai refletindo-se nas brumas das campinas, suspenso como um nevoeiro sobre as montanhas e refletindo-se no fundo dos abismos. O raio amarelo do Filho, mesclado ao azul do Pai, dá vida e vitalidade às plantas, que devolvem uma cor verde por incapacidade de reter os raios dentro de si. Mas, no reino animal, ao qual anatomicamente pertence o homem ainda não regenerado, os três raios são absorvidos e o raio do Espírito Santo imprime-lhe a cor vermelha da sua carne e do seu sangue. A mescla do azul e vermelho evidencia-se na cor púrpura do sangue envenenado pelos múltiplos pecados. Mas o amarelo não se manifestará como corpo-alma, até que o "Dourado Manto Nupcial" da noiva mística do Cristo místico seja emanado de dentro.
Por isso, as cores dos véus do Templo, tanto no portão como na entrada do Tabernáculo, mostravam que essa estrutura foi projetada num período anterior à vinda do Cristo, pois continha somente as cores azul do Pai e vermelha do Espírito Santo, que juntas formam a cor púrpura. Mas o branco é a síntese de todas as cores, portanto, o raio amarelo de Cristo achava-se oculto nessa parte do véu até a chegada do Cristo, que veio para emancipar-nos desses regulamentos e leis e iniciar-nos na plena liberdade dos Filhos de Deus, Filhos da Luz, Maçons livres ou Maçons Místicos.
Capítulo II
O ALTAR DE BRONZE E O LAVABO
O Altar de Bronze estava localizado no átrio, no lado de dentro do portão oriental, e era usado para o sacrifício de animais durante o serviço do templo. A idéia, de usar bois e cabras no sacrifício parece-nos uma barbaridade, e não podemos compreender que eficácia poderia haver nesse procedimento. A Bíblia confirma esse ponto de vista, quando diz que Deus não deseja sacrifícios e sim um espírito arrependido e um coração contrito, pois Ele não sente prazer nos sacrifícios de sangue. A vista desse fato, parece estranho que os sacrifícios tenham sido determinados. Contudo, devemos considerar que nenhuma religião pode elevar aqueles a quem determinados ensinamentos estão designados, se estiverem distantes de seu entendimento intelectual ou moral. Para um bárbaro, a religião deve ter certos traços bárbaros. Uma religião de amor não seria atraente para esse povo, por isso, foi-lhe dada uma lei que exigia "olho por olho e dente por dente". No Velho Testamento não há menção da imortalidade, porque essas pessoas não poderiam entender um céu, nem aspirá-lo. Amavam as posses materiais e, por isso, foram instruídas que, se procedessem corretamente, elas e sua descendência habitariam na terra para sempre e seu gado se multiplicaria, etc., etc.
Adoravam as posses materiais e sabiam que o crescimento de seus rebanhos ocorria pela graça de Deus, e os favores concedidos por Ele eram uma decorrência dos méritos de cada um. Agiam corretamente na esperança de uma recompensa neste mundo. Também eram dissuadidos de praticar o mal, e ensinavam-lhes que uma punição imediata ocorreria como conseqüência dos seus pecados. Era o único processo que entendiam. Não poderiam fazer o bem pelo sentido do próprio bem, nem poderiam entender o princípio de se tornarem eles próprios "sacrifícios vivos", e provavelmente sofriam tanto a perda de um animal quando cometiam pecado, como nós sofremos as dores da consciência pelos nossos erros.
O Altar era feito de bronze, um metal não encontrado na natureza, que consistia de uma liga de cobre e zinco feita pelo homem. Simbolicamente é mostrado que o pecado não estava previsto em nosso esquema evolutivo, constituindo uma anomalia na natureza tanto quanto suas conseqüências, isto é, a dor e a morte simbolizadas pelas vítimas sacrificadas. Enquanto o Altar foi feito de um metal artificialmente composto, o fogo que ardia sempre sobre ele era de origem divina e conservado aceso de ano para ano com o mais perfeito zelo. Nenhum outro fogo jamais foi usado, e podemos mencionar, como exemplo, o caso de dois sacerdotes presunçosos e rebeldes que ousaram desobedecer essas ordens usando um fogo estranho. Em conseqüência, encontraram morte horrível e instantânea. Também para nós, uma vez que tenhamos feito o juramento de aliança com o Mestre Místico, o Eu Superior, será extremamente perigoso desprezar os preceitos que nos foram dados.
Quando o candidato aparece na porta oriental, encontra-se "pobre, nu e cego". Naquele momento é uma pessoa que inspira pena, necessitando ser vestida e trazida para a luz. No entanto, isto não pode ser realizado imediatamente no Templo místico.
Durante o período de sua marcha, da completa nudez até receber as vestes sacerdotais, há uma longa e difícil caminhada. A primeira lição que lhe é ensinada é que o homem progride somente através de sacrifícios. Na Iniciação Mística Cristã, quando o Cristo lava os pés de Seus discípulos, a explicação dada é que se não fosse pela decomposição dos minerais que alimentam o reino vegetal, não haveria vegetação; se não houvessem vegetais para a alimentação dos animais, estes não poderiam sobreviver, e assim sucessivamente. O superior necessita sempre de se sustentar no inferior. Por esse motivo, o homem tem uma dívida contraída para com eles e, como conseqüência, o Mestre lava os pés de Seus discípulos, simbolizando, nesse serviço humilde, o reconhecimento de que eles O haviam servido como um degrau para que pudesse alcançar algo superior.
De modo semelhante, quando o candidato é levado ao Altar de Bronze, aprende a lição que o animal é sacrificado em seu benefício, dando o seu corpo para a alimentação e sua pele para a vestimenta. Além disso, ele vê a nuvem densa de fumaça flutuando sobre o Altar e percebe dentro dela uma luz, mas esta é muito tênue e tão envolvida pela fumaça que não lhe serve como guia permanente. Seus olhos espirituais são fracos, portanto, ele não deve expô-los imediatamente ã luz das mais elevadas verdades espirituais.
O apóstolo Paulo ensinou-nos que o Tabernáculo no Deserto era "uma sombra das boas coisas que virão". Por esse motivo, deve ser interessante e proveitoso ao candidato que vem ao Templo nos tempos atuais, compreender o significado do Altar de Bronze com os sacrifícios e a queima da carne. Para que possamos entender esse mistério, precisamos primeiramente absorver a grande idéia, absolutamente essencial, que o fundamento de todo misticismo verdadeiro está dentro de nós e não fora de nós. Angelus Silésius diz a respeito da Cruz:
"Ainda que Cristo nascesse mil vezes em Belém Se não nascer dentro de ti, tua alma ficará perdida. Em vão olharás a Cruz do Gólgota A menos que dentro de ti, ela seja novamente erguida".
Esta idéia deve ser aplicada a cada símbolo e a cada fase da experiência mística. Não é ó Cristo externo que salva, mas o Cristo Interno. O Tabernáculo foi construído em determinada época, como pode ser visto claramente na Memória da Natureza por aqueles cuja visão interior está suficientemente desenvolvida; porém, ninguém deve esperar qualquer ajuda do símbolo externo. Devemos construir o Tabernáculo dentro de nossos corações e de nossa consciência. Devemos vivenciar, como uma real experiência interna, o ritual completo do serviço lá demonstrado. Devemos ser ambos: o Altar dos Sacrifícios e o animal sacrificado sobre ele. Devemos ser igualmente o sacerdote que imola o animal e o próprio animal imolado. Mais tarde, aprenderemos simultaneamente a identificar-nos com o Lavabo místico e a lavar-nos em espírito dentro dele. Em seguida, devemos entrar por detrás do primeiro véu, servir na Câmara Oriental, e prosseguir através de todo serviço do Templo até tornarmo-nos o maior de todos esses antigos símbolos, a Glória de Shekinah, ou isto de nada nos servirá. Em resumo, antes que o símbolo do Tabernáculo nos possa realmente ajudar, devemos transferi-lo do espaço do deserto para um lar no nosso coração. Ao convertermo-nos no todo que aquele símbolo representa, teremos alcançado o verdadeiro significado da espiritualidade.
Comecemos a construir em nosso coração o Altar dos Sacrifícios, primeiramente para que nele possamos imolar nossas más ações e também expiá-las na crucificação do remorso. Isto se realiza, no moderno sistema de preparação para o discipulado, por um exercício que se executa à noite, e que foi cientificamente designado pelos Hierofantes da Escola de Mistérios Ocidental para crescimento do aspirante no caminho que conduz ao discipulado. Outras escolas de mistérios ensinaram exercícios similares, mas este difere de todos os métodos anteriores num ponto particular. Depois da explanação do exercício, daremos a razão desta grande e importante diferença.
Este método especial tem um alcance tão duradouro e efetivo, que capacita as pessoas a aprender agora, não somente as lições comuns da vida, mas a alcançar um desenvolvimento que, de outro modo, só poderia ser atingido através de muitos renascimentos.
A noite, quando nos retiramos para descansar, devemos relaxar completamente o corpo. É muito importante que assim se faça, pois se alguma parte do corpo permanecer tensa, o sangue não poderá circular livremente e ficará sob pressão. Como todo desenvolvimento espiritual depende do sangue, o esforço para atingir o crescimento anímico não será alcançado enquanto qualquer parte do corpo estiver sob tensão.
Quando esse completo relaxamento é alcançado, o aspirante à vida superior começa a rever as cenas do dia, e essa retrospecção deve ser iniciada com as ocorrências da noite, depois as da tarde, terminando com as da manhã, isto é, ele as revive em ordem inversa: primeiro as cenas da noite, seguem-se as da tarde e por fim as da manhã. A razão disto é que no instante do nascimento, quando a criança inala a sua primeira respiração, o ar inspirado pelos pulmões carrega um quadro do mundo exterior e, conforme o sangue flui pelo ventrículo esquerdo do coração, cada cena fica gravada, minuto por minuto, no átomo-semente ali localizado. Cada inspiração traz consigo novas imagens que ficam gravadas naquele pequeno átomo-semente, um registro de cada cena e de cada ação praticada durante toda a nossa vida, desde o primeiro alento até o último suspiro. Após a morte, esses registros formam a base de nossa existência purgatorial. Sob as condições do mundo espiritual, sofremos dores de consciência tão agudas que são inacreditáveis. Sofremos pelos erros cometidos, e assim nos sentimos desencorajados de repeti-los. Do mesmo modo, a alegria pelos bons atos praticados impele-nos a seguir o caminho da virtude em vidas futuras. Porém, na existência "post-mortem", esse panorama é revisto na ordem inversa a fim de mostrar primeiramente os efeitos e depois as causas que as geraram. Isso para que o espírito possa aprender como a Lei de Causa e Efeito funciona na vida. Por esse motivo, o aspirante, que está sob a orientação científica dos Irmãos Maiores da Rosacruz, recebe ensinamentos para realizar os exercícios noturnos na ordem inversa, julgando-se diariamente e assim escapar do sofrimento do purgatório após a morte. Mas devemos ter consciência de que não haverá mérito algum se contemplarmos passivamente os atos do dia. Não é suficiente rever uma cena em que tenhamos ofendido alguém e dizer simplesmente: "Sinto muito o que fiz, desejaria nunca tê-lo feito". Nesse momento, deveríamos considerar que somos o animal sacrificado jazendo sobre o Altar dos Sacrifícios. A menos que consigamos sentir em nosso coração o divino fogo ardente do remorso queimando até o mais profundo de nosso ser, devido aos males praticados durante o dia, nada alcançaremos.
Durante a antiga dispensação, todas as oferendas a serem sacrificadas eram friccionadas com sal antes de colocadas no Altar dos Sacrifícios. Todos sabemos como dói e queima quando acidentalmente algum sal cai num ferimento recente. Esse salgamento nos sacrifícios dos Antigos Templos de Mistérios simbolizava a intensidade da dor que devemos sentir quando nós, como sacrifícios vivos, colocar-nos sobre o Altar dos Sacrifícios. É o sentimento do remorso, o profundo e sincero arrependimento pelo que fizemos, que erradica o registro do átomo-semente, deixando-o limpo e sem manchas. Assim como na antiga dispensação os transgressores eram perdoados quando traziam uma oferenda para ser queimada e depositada no Altar dos Sacrifícios, assim também nós, nos tempos atuais, pelo caráter científico do exercício de retrospecção, eliminamos o registro de nossos pecados. É uma conclusão lógica que não poderemos continuar, noite após noite, a executar esse sacrifício vivo sem nos tornarmos melhores, porque devemos deixar, pouco a pouco, de cometer os erros dos quais nos culpamos no exercício noturno. Por isso, em acréscimo à eliminação de nossas faltas, o exercício leva-nos a um nível mais alto de espiritualidade que, de outra forma, não poderíamos alcançar em nossa atual vida terrestre.
Também é interessante notar que quando uma pessoa cometia um grave crime e chegava ao santuário, encontrava proteção à sombra do Altar dos Sacrifícios, pois, ali, somente o divino fogo ardente podia julgar. Ela escapava das mãos dos homens, mas colocava-se nas mãos de Deus. De modo semelhante, o aspirante que reconhece suas faltas todas as noites aproximando-se do altar do julgamento vivente, alcança também o santuário pela Lei de Causa e Efeito, e "mesmo que seus pecados sejam escarlates, ficarão tão brancos como a neve".
O Lavabo de Bronze
O Lavabo de Bronze era uma grande bacia sempre cheia de água. Diz-se na Bíblia, que ela ficava apoiada às costas de 12 bois também feitos de bronze, sendo que suas partes traseiras estavam voltadas para o centro do recipiente. Entretanto, na Memória da Natureza, vê-se que esses animais não eram bois, mas representações simbólicas dos doze signos do zodíaco. Naquele tempo, a humanidade estava dividida em doze grupos, um para cada signo zodiacal. Cada animal simbólico atraía um raio particular e, tal como a água benta usada atualmente nas igrejas católicas é magnetizada pelo padre durante a cerimônia da consagração, também a água deste Lavabo era magnetizada pelas Divinas Hierarquias que guiavam a humanidade.
Não pode haver dúvida quanto ao poder da água santa preparada por uma personalidade forte e magnética. Ela transfere para a água os eflúvios do seu corpo vital, e as pessoas ao usá-la tornam-se suscetíveis ao seu efeito' de acordo com o grau de sensibilidade de cada uma. Assim também, a água do Lavabo de Bronze no antigo Templo de Mistérios Atlante era magnetizada por Hierarquias Divinas de imensurável poder, e tornava-se potente fator para guiar o povo de acordo com os desejos desses poderosos regentes. Por isso, os sacerdotes sujeitavam-se perfeitamente aos mandatos e ordens de seus guias espirituais invisíveis e, através deles, o povo era guiado cegamente. Era exigido dos sacerdotes que lavassem as mãos e os pés antes de adentrar nos recintos sagrados do Tabernáculo. Se essa ordem não fosse obedecida, a morte atingia imediatamente o sacerdote quando entrasse no Tabernáculo. Portanto, podemos dizer que a palavra-chave do Altar de Bronze era "justificação", enquanto que a idéia central do Lavabo de Bronze era "consagração".
"Muitos são chamados e poucos os escolhidos". Temos o exemplo daquele jovem rico que foi até Cristo querendo saber o que deveria fazer para ser perfeito. Ele assegurava que cumpria a Lei, mas quando Cristo lhe ordenou: "Segue-Me", ele não o fez, porque possuía muitas riquezas que o retinham e precisava cuidar delas. Como a grande maioria, ele ficaria feliz se pudesse somente escapar à condenação e, como os outros, era demasiadamente tíbio para esforçar-se em alcançar o merecimento através do 'serviço amoroso e desinteressado. O Lavabo de Bronze é o símbolo da santificação e da consagração da vida ao serviço. Assim como Cristo iniciou seus três anos de ministério através do batismo pela água, assim também o aspirante ao serviço no antigo Templo devia santificar-se na corrente sagrada que fluía do Mar Fundido. E o Maçom místico, almejando construir um templo "sem ruído de martelo" para nele servir, deve também consagrar-se e santificar-se. Deve deixar toda posse terrena para poder seguir o Cristo Interno. No entanto, pode conservar suas posses materiais usando-as com fé e sabedoria, como um sagrado depósito que lhe é confiado. E devemos estar realmente prontos para seguir o Cristo interno quando Ele disser: "Segue-Me", mesmo que a sombra da cruz surja negra no final do caminho. Sem esta última renúncia da vida pela Luz, pelas propostas superiores, não pode haver progresso. Do mesmo modo que o Espírito desceu sobre Jesus quando Ele emergiu da água batismal da consagração, também o Maçom místico, que se banha no lavabo do Mar Fundido, começa a ouvir suavemente a voz do Mestre dentro de seu próprio coração, instruindo-o nos segredos do Ofício que deverá desempenhar em benefício de seus semelhantes.
Capítulo III - SALA LESTE DO TEMPLO